{"id":116,"date":"2026-01-09T16:03:52","date_gmt":"2026-01-09T16:03:52","guid":{"rendered":"https:\/\/elfarinha.com\/?p=116"},"modified":"2026-01-09T16:03:53","modified_gmt":"2026-01-09T16:03:53","slug":"da-piada-facil-ao-apagao-de-factos-a-guerra-a-wikipedia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/elfarinha.com\/index.php\/2026\/01\/09\/da-piada-facil-ao-apagao-de-factos-a-guerra-a-wikipedia\/","title":{"rendered":"Da piada f\u00e1cil ao apag\u00e3o de factos: a guerra \u00e0 Wikip\u00e9dia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma certa eleg\u00e2ncia na ideia de que o saber cabe inteiro numa p\u00e1gina branca com letras azuis sublinhadas. Durante anos, a Wikip\u00e9dia foi isso: uma promessa de que, se houvesse tempo e curiosidade suficientes, qualquer pessoa poderia ir descascando o mundo, link a link, at\u00e9 chegar a uma esp\u00e9cie de osso da verdade. Depois veio Trump, Musk, a gram\u00e1tica da humilha\u00e7\u00e3o em rede, e a enciclop\u00e9dia passou a alvo. Wokipedia. Dickipedia. De repente, a biblioteca p\u00fablica do mundo virou saco de pancada num ringue de memes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A direita radical sempre precisou de inimigos claros. A imprensa. As universidades. As ONG que \u201cvivem de subs\u00eddios\u201d. Faltava uma enciclop\u00e9dia para completar o \u00e1lbum. A Wikip\u00e9dia encaixa na perfei\u00e7\u00e3o: \u00e9 global, colaborativa, an\u00f3nima, cheia de gente que discute fontes \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3 em talk pages que ningu\u00e9m l\u00ea. Para um universo pol\u00edtico que vive de desconfiar de qualquer media\u00e7\u00e3o, \u00e9 irresist\u00edvel. Chamar\u2011lhe Wokipedia \u00e9 mais do que um insulto: \u00e9 uma senha. Quer dizer \u201cn\u00e3o confies em nada do que n\u00e3o controlamos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O epis\u00f3dio \u201cDickipedia\u201d \u00e9 um comp\u00eandio desta nova liturgia. Um bilion\u00e1rio decide oferecer um donativo astron\u00f3mico se a enciclop\u00e9dia aceitar rebaixar\u2011se a piada adolescente. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 tro\u00e7a, \u00e9 poder em exibi\u00e7\u00e3o, como quem pousa um ma\u00e7o de notas em cima de uma mesa de biblioteca e pergunta \u201cquanto custa destruir isto?\u201d. A palavra, aqui, funciona como graf\u00edti na fachada de um museu: n\u00e3o altera o acervo, mas tenta contaminar o olhar de quem entra. O objetivo n\u00e3o \u00e9 melhorar a informa\u00e7\u00e3o; \u00e9 sujar o ch\u00e3o at\u00e9 ningu\u00e9m querer entrar descal\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 volta deste espet\u00e1culo nascem projetos alternativos: enciclop\u00e9dias \u201ccrist\u00e3s e conservadoras\u201d, plataformas que prometem \u201cneutralidade\u201d mas partem j\u00e1 com r\u00f3tulo ideol\u00f3gico de origem. A l\u00f3gica \u00e9 simples e antiga: se n\u00e3o consigo dominar o espa\u00e7o comum, construo um condom\u00ednio fechado da verdade. H\u00e1 factos para dentro e factos para fora. Dentro, os her\u00f3is s\u00e3o impec\u00e1veis, os esc\u00e2ndalos s\u00e3o inven\u00e7\u00f5es, o racismo \u00e9 \u201cnarrativa\u201d. Fora, tudo \u00e9 suspeito, contaminado, \u201cwoke\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No meio disto, a Wikip\u00e9dia continua a ser um s\u00edtio confuso, cheio de falhas, enviesamentos, disputas e remendos. Mas \u00e9 isso que a torna preciosa: o conflito \u00e9 vis\u00edvel, discutido, revers\u00edvel. As vers\u00f5es n\u00e3o desaparecem numa cave de servidor; ficam l\u00e1, numa cronologia de edi\u00e7\u00f5es que mostra que a verdade \u00e9 trabalho, n\u00e3o revela\u00e7\u00e3o. Quando a direita radical ligada a Trump atira pedras \u00e0 Wokipedia ou sonha com Dickipedia, n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 a provocar. Est\u00e1 a ensaiar uma outra coisa: a substitui\u00e7\u00e3o da d\u00favida partilhada pela certeza de claque, o fim da pra\u00e7a p\u00fablica onde se erra \u00e0 vista de todos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez a pergunta n\u00e3o seja se a Wikip\u00e9dia \u00e9 \u201cwoke\u201d ou \u201cconservadora\u201d. Talvez a pergunta seja mais simples e mais inquieta: quem \u00e9 que ganha quando deixamos de ter um s\u00edtio imperfeito, irritante, corrig\u00edvel, onde qualquer um pode entrar, e passamos a viver em pequenas enciclop\u00e9dias privadas, feitas \u00e0 medida da nossa raiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma certa eleg\u00e2ncia na ideia de que o saber cabe inteiro numa p\u00e1gina branca com letras azuis sublinhadas. Durante anos, a Wikip\u00e9dia foi isso: uma promessa de que, se houvesse tempo e curiosidade suficientes, qualquer pessoa poderia ir descascando o mundo, link a link, at\u00e9 chegar a uma esp\u00e9cie de osso da verdade. 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