{"id":132,"date":"2026-02-01T15:47:13","date_gmt":"2026-02-01T15:47:13","guid":{"rendered":"https:\/\/elfarinha.com\/?p=132"},"modified":"2026-02-01T15:47:14","modified_gmt":"2026-02-01T15:47:14","slug":"entre-o-grito-e-o-espelho-como-o-novo-fascismo-testa-os-limites-da-nossa-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/elfarinha.com\/index.php\/2026\/02\/01\/entre-o-grito-e-o-espelho-como-o-novo-fascismo-testa-os-limites-da-nossa-democracia\/","title":{"rendered":"Entre o grito e o espelho como o novo fascismo testa os limites da nossa democracia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um fascismo que se olha ao espelho e sabe o nome pr\u00f3prio que tem. H\u00e1 outro que ainda se penteia como \u201cindigna\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cchega de abusos\u201d, \u201cjusti\u00e7a para os de baixo\u201d, enquanto vai ensaiando o gesto duro com que se fala ao pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O texto de Jonathan Rauch na The Atlantic sobre a presid\u00eancia de Donald Trump faz o invent\u00e1rio desse fascismo que j\u00e1 n\u00e3o se esconde na penumbra. N\u00e3o \u00e9 apenas o homem autorit\u00e1rio que confunde o Estado com o seu neg\u00f3cio ou com a sua fam\u00edlia. \u00c9 um sistema de cren\u00e7as e pr\u00e1ticas, um fogo que prefere a demoli\u00e7\u00e3o \u00e0 reforma, a humilha\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica, a guerra \u00e0 pol\u00edtica. Quando se olha para Portugal, para a irrup\u00e7\u00e3o recente da extrema-direita no centro do palco, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o reconhecer fragmentos desse mesmo gui\u00e3o, ainda que numa vers\u00e3o mais contida, mais perif\u00e9rica, como se estiv\u00e9ssemos a assistir aos ensaios gerais e n\u00e3o \u00e0 estreia mundial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rauch fala de demoli\u00e7\u00e3o de normas, da alegria quase infantil de quebrar a civilidade, de dizer o que \u201cn\u00e3o se podia dizer\u201d, de escarnecer inimigos at\u00e9 os reduzir a caricatura. Em Portugal, esta liberta\u00e7\u00e3o do insulto entrou pela televis\u00e3o como entretenimento pol\u00edtico, aplaudida como \u201cbom senso sem filtros\u201d, \u201cverdades duras\u201d, uma esp\u00e9cie de catarse coletiva em que o alvo tanto pode ser o \u201ccigano\u201d, o \u201csubsidiodependente\u201d, o pol\u00edtico \u201cladr\u00e3o\u201d, a feminista \u201chist\u00e9rica\u201d. Primeiro rimo-nos. Depois habituamo-nos. Um dia damos por n\u00f3s a repetir express\u00f5es que, ditas por um vizinho, nos teriam chocado. O fascismo contempor\u00e2neo come\u00e7a assim: n\u00e3o com tanques na rua, mas com a eros\u00e3o paciente do pudor, da vergonha, da delicadeza como trav\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tamb\u00e9m a desumaniza\u00e7\u00e3o, esse gesto simples de trocar pessoas por categorias degradadas, lixo, praga, amea\u00e7a difusa que precisa de ser \u201climpa\u201d. Em Portugal, ouvimos falar de bairros inteiros como se fossem manchas de \u00f3leo num mapa, lugares onde \u201cn\u00e3o entra a pol\u00edcia\u201d, onde \u201cs\u00f3 h\u00e1 crimes e subs\u00eddios\u201d, sem que se pronunciem nomes, hist\u00f3rias, rostos. Quando um partido cresce dizendo que h\u00e1 uma parte da popula\u00e7\u00e3o que \u201cvive \u00e0 custa do trabalho dos outros\u201d, que certos grupos s\u00e3o estruturalmente um problema, est\u00e1 a dar ao \u00f3dio uma linguagem respeit\u00e1vel. N\u00f3s, sentados no sof\u00e1 de domingo, vamos consentindo, porque nos disseram que \u00e9 apenas \u201cdizer as coisas como elas s\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O artigo da The Atlantic descreve ainda a transforma\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia em bra\u00e7o armado do ressentimento, uma for\u00e7a exibida em v\u00eddeos, fardas, raides noturnos, mais pr\u00f3xima de mil\u00edcia do que de servi\u00e7o p\u00fablico. Em Portugal n\u00e3o estamos a\u00ed. As for\u00e7as de seguran\u00e7a n\u00e3o s\u00e3o ainda o prolongamento org\u00e2nico de um l\u00edder nem de um partido. Mas o desejo est\u00e1 no discurso: mais armas, mais autoridade, menos \u201cdireitos dos bandidos\u201d, mais licen\u00e7a para \u201climpar\u201d o que sobra do pa\u00eds \u201cdecente\u201d. Quando se aplaudem agress\u00f5es policiais como se fossem justi\u00e7a sum\u00e1ria, quando se acha normal expor imagens de deten\u00e7\u00f5es como trof\u00e9us nas redes sociais, estamos a ensaiar a vertigem que Rauch descreve: a excita\u00e7\u00e3o diante da for\u00e7a, a transforma\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia em espet\u00e1culo compensat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trump n\u00e3o ataca s\u00f3 pessoas. Ataca a pr\u00f3pria ideia de verdade, erguendo um mundo de factos alternativos em que cada mentira \u00e9 um teste de fidelidade, um ritual de perten\u00e7a. Por c\u00e1, tamb\u00e9m aprendemos depressa o valor pol\u00edtico da d\u00favida permanente. Desacredita-se tudo ao mesmo tempo: jornalistas, tribunais, estat\u00edsticas, estudos, relat\u00f3rios. N\u00e3o se prop\u00f5e uma verdade melhor, basta insinuar que nenhuma \u00e9 confi\u00e1vel. \u00c9 o mesmo jogo. Uma democracia sem confian\u00e7a em nada \u00e9 um terreno f\u00e9rtil para quem chega com uma narrativa simples e total: n\u00f3s somos o povo, eles s\u00e3o o sistema. Um pa\u00eds inteiro passa a ler-se a preto e branco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma ideia que atravessa o texto de Rauch como uma l\u00e2mina: pol\u00edtica transformada em guerra permanente. Em vez de advers\u00e1rios, inimigos. Em vez de diverg\u00eancias, amea\u00e7as existenciais. Em Portugal, esta l\u00f3gica est\u00e1 a ser ensaiada \u00e0 vista desarmada. O Parlamento transforma-se em palco de confrontos coreografados para a c\u00e2mara, n\u00e3o para o debate; a linguagem inflama-se, a insinua\u00e7\u00e3o substitui o argumento, o insulto torna-se m\u00e9todo. N\u00e3o se procuram solu\u00e7\u00f5es partilh\u00e1veis. Procura-se deixar o outro em cinzas. Carl Schmitt sorri, em sil\u00eancio, enquanto nos habituamos \u00e0 ideia de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 conversa poss\u00edvel\u201d com quem pensa diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rauch sublinha outra caracter\u00edstica do fascismo: a recusa da separa\u00e7\u00e3o entre o Estado e o que n\u00e3o \u00e9 o Estado. Empresas, universidades, jornais, redes sociais, tudo deve alinhar com o projeto do l\u00edder, ou ser\u00e1 humilhado, perseguido, descredibilizado. Em Portugal, j\u00e1 conhecemos de leve esse desejo de captura. Press\u00f5es sobre jornalistas, campanhas nas redes sociais para arruinar reputa\u00e7\u00f5es, ataques coordenados a universidades ou artistas, tudo embrulhado na palavra \u201cpovo\u201d. N\u00e3o \u00e9 ainda o Estado a comandar os meios, mas s\u00e3o j\u00e1 partidos a us\u00e1-los como armas, testando at\u00e9 onde pode ir o condicionamento, a intimida\u00e7\u00e3o, a chantagem simb\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E depois h\u00e1 o nacionalismo identit\u00e1rio, a fantasia de um pa\u00eds puro que foi corrompido por elites cosmopolitas, estrangeiros, minorias. No caso americano, Rauch fala de \u201cblood and soil\u201d, de uma Am\u00e9rica branca e crist\u00e3 sonhada como destino perdido que \u00e9 preciso restaurar. Entre n\u00f3s, a vers\u00e3o \u00e9 mais modesta, mas ecoa: um Portugal \u201cdos portugueses\u201d, uma ideia difusa de povo aut\u00eantico tra\u00eddo por pol\u00edticos vendidos a Bruxelas ou a agendas \u201cglobalistas\u201d. Um pa\u00eds que, sendo historicamente mesti\u00e7o, mar\u00edtimo, mesti\u00e7o outra vez, se finge homog\u00e9neo para melhor excluir quem n\u00e3o encaixa na fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Importa, contudo, fazer a distin\u00e7\u00e3o que o pr\u00f3prio Rauch faz: um l\u00edder fascista n\u00e3o basta para que um pa\u00eds seja, de imediato, um pa\u00eds fascista. Os Estados Unidos continuam a ter tribunais independentes, estados insubmissos, imprensa livre o suficiente para denunciar o abuso. Em Portugal, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1976, o papel do Presidente da Rep\u00fablica, o sistema partid\u00e1rio e at\u00e9 uma certa prud\u00eancia social funcionam ainda como trav\u00f5es importantes. N\u00e3o temos uma pol\u00edcia pol\u00edtica pessoal do chefe, nem campos de deten\u00e7\u00e3o erguidos \u00e0 pressa, nem elei\u00e7\u00f5es canceladas. Temos, sim, um teste em curso: quanto da nossa democracia estamos dispon\u00edveis para sacrificar em troca do prazer de ver algu\u00e9m \u201cmeter ordem nisto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O perigo talvez n\u00e3o esteja em acordarmos um dia sob uma ditadura formal, mas em adormecermos aos poucos numa cultura pol\u00edtica fascizante. No modo como falamos uns dos outros. Nas palavras que achamos aceit\u00e1veis. No riso c\u00famplice diante da humilha\u00e7\u00e3o alheia. Na pressa em achar que \u201celes\u201d n\u00e3o contam, que \u201cn\u00e3o fazem falta nenhuma\u201d. Nas vezes em que j\u00e1 cedemos no l\u00e9xico, na delicadeza, na d\u00favida, s\u00f3 para n\u00e3o sermos acusados de \u201cpoliticamente corretos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rauch escreve que \u00e9 preciso dar nome \u00e0s coisas, que evitar a palavra fascismo, quando a constela\u00e7\u00e3o de sinais est\u00e1 \u00e0 vista, se torna uma forma de nega\u00e7\u00e3o. Em Portugal, talvez este seja o momento de olhar de frente para as semelhan\u00e7as incipientes, sem dramatismo de cartaz, mas com a gravidade que o assunto pede. Reconhecer que h\u00e1 um fio que liga a desumaniza\u00e7\u00e3o no discurso \u00e0 viol\u00eancia na rua, a eros\u00e3o da imprensa livre ao sil\u00eancio c\u00famplice, a transforma\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica em guerra \u00e0 vontade de suspender direitos \u201ctemporariamente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio acad\u00e9mico. \u00c9 da ordem do \u00edntimo. \u00c9 perguntar que pa\u00eds aceitamos ser quando ningu\u00e9m est\u00e1 a ver, quando desligamos a televis\u00e3o e repetimos, sozinhos, as frases que ouvimos. A democracia n\u00e3o se perde apenas nas constitui\u00e7\u00f5es emendadas. Perde-se, devagarinho, nas palavras que deixamos de estranhar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um fascismo que se olha ao espelho e sabe o nome pr\u00f3prio que tem. H\u00e1 outro que ainda se penteia como \u201cindigna\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cchega de abusos\u201d, \u201cjusti\u00e7a para os de baixo\u201d, enquanto vai ensaiando o gesto duro com que se fala ao pa\u00eds. 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