{"id":144,"date":"2026-02-17T14:40:04","date_gmt":"2026-02-17T14:40:04","guid":{"rendered":"https:\/\/elfarinha.com\/?p=144"},"modified":"2026-02-18T12:18:39","modified_gmt":"2026-02-18T12:18:39","slug":"carnaval-um-modelo-de-lideranca-para-o-resto-do-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/elfarinha.com\/index.php\/2026\/02\/17\/carnaval-um-modelo-de-lideranca-para-o-resto-do-ano\/","title":{"rendered":"Carnaval: um modelo de lideran\u00e7a para o resto do ano"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imaginei uma empresa. N\u00e3o aquela das fotografias polidas dos relat\u00f3rios anuais, com pessoas de dentes perfeitamente alinhados a sorrir para objetivos trimestrais. Imaginei antes um corredor na ter\u00e7a feira de Carnaval, onde algu\u00e9m aparece de Careto de Podence, com os guizos a tilintar, e outro trouxe uma m\u00e1scara de raposa que comprou numa loja de Lisboa qualquer. (O chefe est\u00e1 de palha\u00e7o, mas isso \u00e9 outra hist\u00f3ria, ou talvez seja a mesma).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 algo de extraordinariamente humano no Carnaval que n\u00f3s, portugueses, transportamos para dentro das paredes de vidro dos escrit\u00f3rios. E n\u00e3o falo dos foli\u00f5es organizados pelo departamento de recursos humanos, com cupcakes cor de rosa e um concurso de fantasias cujo pr\u00e9mio \u00e9 um vale de massagem. Falo daquela permiss\u00e3o breve, quase subversiva, de mostrarmos uma camada que o resto do ano mantemos sob a almofada do etiqueta profissional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A minha av\u00f3 dizia que o Carnaval serve para o povo esquecer que tem fome. Eu digo que serve para nos lembrarmos que temos rosto. Durante trezentos e sessenta e poucos dias, usamos m\u00e1scaras invis\u00edveis. A do competente, a do dispon\u00edvel, a daquele que tem sempre a resposta na ponta da l\u00edngua. S\u00e3o m\u00e1scaras de prote\u00e7\u00e3o, claro. O sil\u00eancio foi durante muito tempo a nossa linguagem no trabalho, num tempo em que a n\u00e3o resposta era a \u00fanica armadura permitida. Mas o Carnaval ensina-nos outra coisa: que h\u00e1 for\u00e7a na vulnerabilidade, que a estrat\u00e9gia passa tamb\u00e9m por baixar a guarda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu penso muito naquela ideia da invers\u00e3o. No tempo em que a patroa servia a mesa aos empregados, no rei que era coroado de papel, no poder de subverter a ordem por algumas horas sem que o mundo desmorone. (O mundo n\u00e3o desmorona, percebem? Continua l\u00e1 fora, na rua, a girar na sua teimosia). Isto parece-me tremendamente \u00fatil para quem gere equipas. N\u00e3o a subvers\u00e3o pelo caos, mas a subvers\u00e3o pela verdade. Aquela que acontece quando algu\u00e9m, finalmente, diz &#8220;n\u00e3o sei&#8221;, ou &#8220;isto n\u00e3o est\u00e1 a funcionar&#8221;, ou &#8220;preciso de ajuda&#8221;, e a sala n\u00e3o implode.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 pessoas que passam por baixo do radar das empresas. N\u00e3o porque n\u00e3o trabalhem, mas porque trabalham sem estrondo. S\u00e3o as que t\u00eam a hist\u00f3ria n\u00e3o contada, o talento escondido, a dor que trazem disfar\u00e7ada de prazo cumprido. O Carnaval, com a sua generosidade de esp\u00edrito, com a sua gra\u00e7a de quem sabe que a vida \u00e9 curta demais para andarmos s\u00e9rios de m\u00e1s posturas, podia ser um modelo. N\u00e3o o da festa ruidosa, mas o da aten\u00e7\u00e3o. Da escuta. De perguntarmos \u00e0quele colega do canto, daquele que nunca fala nas reuni\u00f5es, como \u00e9 que ele \u00e9 quando ningu\u00e9m est\u00e1 a ver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A minha palavra preferida \u00e9 liberdade. E a liberdade, no contexto de quem lidera ou de quem \u00e9 liderado, passa por criar espa\u00e7os onde as pessoas n\u00e3o precisem de pedir licen\u00e7a para serem inteiras. O Carnaval dura poucos dias, mas a mem\u00f3ria de nos termos visto de outra forma, de nos termos reconhecido nas camadas uns dos outros, essa poderia durar o ano todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E voc\u00eas? Que m\u00e1scara deixariam no cabide, se o escrit\u00f3rio fosse por um instante uma rua de Ovar, uma noite de Torres Vedras, uma manh\u00e3 de Lazarim?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imaginei uma empresa. 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