{"id":183,"date":"2026-04-23T13:21:41","date_gmt":"2026-04-23T13:21:41","guid":{"rendered":"https:\/\/elfarinha.com\/?p=183"},"modified":"2026-04-23T13:21:42","modified_gmt":"2026-04-23T13:21:42","slug":"internamentos-inapropriados-o-preco-da-cobardia-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/elfarinha.com\/index.php\/2026\/04\/23\/internamentos-inapropriados-o-preco-da-cobardia-publica\/","title":{"rendered":"Internamentos inapropriados: o pre\u00e7o da cobardia p\u00fablica"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma forma muito portuguesa de disfar\u00e7ar o falhan\u00e7o: deix\u00e1-lo acontecer devagar, em sil\u00eancio, dentro de um hospital. Uma cama ocupada durante semanas por algu\u00e9m que j\u00e1 teve alta e n\u00e3o tem para onde ir \u00e9 isso mesmo, um falhan\u00e7o a acontecer devagar. Em 19 de mar\u00e7o de 2025, havia 2.342 pessoas nesta situa\u00e7\u00e3o no SNS, o que corresponde a 11,7% dos internamentos observados naquele dia. No total, s\u00e3o 367.498 dias de perman\u00eancia depois da alta cl\u00ednica e cerca de 288,6 milh\u00f5es de euros por ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 um desvio pequeno, nem um detalhe t\u00e9cnico. \u00c9 uma escolha pol\u00edtica feita sobretudo por in\u00e9rcia. O hospital acaba a absorver aquilo que a resposta social, a rede de cuidados continuados, os lares, a sa\u00fade mental cr\u00f3nica e, em certos casos, a pr\u00f3pria justi\u00e7a n\u00e3o conseguem, ou n\u00e3o querem, resolver no tempo certo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando algu\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o precisa de cuidados hospitalares e continua ali, o que est\u00e1 em causa deixou de ser medicina. \u00c9 incapacidade do Estado, descoordena\u00e7\u00e3o entre servi\u00e7os, falta de vagas e, muitas vezes, aus\u00eancia pura e simples de decis\u00e3o. O SNS, com os seus profissionais j\u00e1 pressionados, paga a fatura daquilo que falha fora dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dados ajudam a perceber de onde vem a press\u00e3o. A principal causa apontada para o n\u00famero de internamentos inapropriados \u00e9 a falta de resposta da RNCCI, com cerca de 38% dos casos. Quando se olha para os dias acumulados, \u00e9 a espera por lugar em ERPI que pesa mais, com 44% do total. A isto somam-se as estruturas de sa\u00fade mental para doentes cr\u00f3nicos, que tamb\u00e9m prolongam perman\u00eancias que j\u00e1 n\u00e3o fazem sentido cl\u00ednico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja, os hospitais n\u00e3o est\u00e3o bloqueados apenas por excesso de doen\u00e7a aguda. Est\u00e3o bloqueados, em parte crescente, por falta de solu\u00e7\u00e3o para pessoas que j\u00e1 tiveram alta e permanecem internadas porque o pa\u00eds, a jusante, n\u00e3o construiu respostas suficientes, articuladas e r\u00e1pidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma pervers\u00e3o do sistema. O hospital devia ser o lugar do diagn\u00f3stico, da urg\u00eancia, do tratamento intensivo e da recupera\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. Est\u00e1 a funcionar, demasiadas vezes, como lar improvisado, como unidade continuada que nunca chegou, como enfermaria psiqui\u00e1trica prolongada. E um hospital usado assim deixa de estar plenamente dispon\u00edvel para toda a gente, inclusive para quem espera na urg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Basta pensar em quem s\u00e3o estas pessoas para perceber a dimens\u00e3o humana do problema. Setenta e quatro por cento dos epis\u00f3dios dizem respeito a pessoas com mais de 65 anos. Tr\u00eas em cada quatro correspondem a internamentos m\u00e9dicos. Metade come\u00e7a na Medicina Interna. Estamos a falar de idosos, de depend\u00eancia, de fragilidade, de pessoas que precisavam de continuidade de cuidados e que acabam a viver durante meses num quarto de hospital porque mais ningu\u00e9m os recebe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A geografia do problema tamb\u00e9m diz muito. Lisboa e Vale do Tejo e a regi\u00e3o Norte concentram 80% dos internamentos inapropriados e 96% do total de dias associados. Nestas zonas, a falta de respostas interm\u00e9dias n\u00e3o \u00e9 um inconveniente, \u00e9 um estrangulamento. Quem trabalha nos servi\u00e7os sabe bem que h\u00e1 alas inteiras a funcionar, na pr\u00e1tica, como retaguarda social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perante isto, j\u00e1 n\u00e3o chega repetir f\u00f3rmulas gastas. Falar de \u201cmelhor articula\u00e7\u00e3o\u201d sem mudar nada de estrutural, celebrar projetos-piloto aqui e ali, anunciar pequenos refor\u00e7os de vagas como se fossem revolu\u00e7\u00f5es. O problema, hoje, \u00e9 maior do que qualquer resposta avulsa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portugal precisa, claro, de mais vagas em ERPI, mais capacidade na RNCCI, mais apoio domicili\u00e1rio, mais suporte aos cuidadores informais e circuitos mais r\u00e1pidos entre Sa\u00fade, Seguran\u00e7a Social e Justi\u00e7a. Tudo isto est\u00e1 identificado h\u00e1 anos. Mas, para al\u00e9m disso, talvez seja preciso ter coragem para discutir uma hip\u00f3tese que gera desconforto: criar estruturas interm\u00e9dias de grande dimens\u00e3o, distribu\u00eddas pelo pa\u00eds, pensadas especificamente para receber doentes com alta cl\u00ednica que n\u00e3o t\u00eam resposta imediata na comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sei que a ideia incomoda. H\u00e1 quem leia \u201cestruturas grandes\u201d e pense logo em dep\u00f3sitos humanos, em armaz\u00e9ns de exclu\u00eddos, em m\u00e1s mem\u00f3rias. Faz sentido esse receio. Mas n\u00e3o \u00e9 disso que se trata, ou pelo menos n\u00e3o tem de ser. Falo de unidades cl\u00ednicas e sociais s\u00e9rias, p\u00fablicas ou fortemente contratualizadas, com equipas multidisciplinares, gest\u00e3o de caso, articula\u00e7\u00e3o com autarquias e seguran\u00e7a social, e capacidade real de absorver casos com rapidez. Convalescen\u00e7a social, depend\u00eancia prolongada, situa\u00e7\u00f5es sociais complexas, sa\u00fade mental cr\u00f3nica estabilizada. Coisas que, hoje, ficam penduradas em camas hospitalares durante meses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem rejeita \u00e0 partida esta hip\u00f3tese devia ter a honestidade de responder a uma pergunta muito concreta: qual \u00e9 a alternativa com escala suficiente para libertar os hospitais num prazo razo\u00e1vel? Em mar\u00e7o de 2025, existiam apenas 21 entidades com alternativas aos internamentos sociais e 914 vagas ocupadas em estruturas contratualizadas, num universo de 2.342 pessoas em internamento inapropriado. A despropor\u00e7\u00e3o \u00e9 esmagadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nada disto dispensa a rede de proximidade. Sem mais lares, sem cuidados continuados acess\u00edveis, sem investimento s\u00e9rio em sa\u00fade mental comunit\u00e1ria e sem apoio real aos cuidadores informais, qualquer estrutura central vai receber demasiado e resolver pouco. Mas isso n\u00e3o \u00e9 argumento contra. \u00c9 argumento para integrar tudo numa estrat\u00e9gia nacional coerente, com v\u00e1rios n\u00edveis de resposta e com uma porta de sa\u00edda organizada para cada pessoa que entra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel \u00e9 continuar assim. Sabemos quantos s\u00e3o. Sabemos porque ficam. Sabemos quanto custa. Sabemos que a maior parte \u00e9 idosa, que a RNCCI \u00e9 a principal causa, que as ERPI explicam grande parte dos dias acumulados e que tudo isto se concentra nas regi\u00f5es j\u00e1 mais pressionadas. E, apesar de saber, o pa\u00eds continua a aceitar que o hospital fa\u00e7a o trabalho das estruturas que faltam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fundo, a escolha \u00e9 simples, mesmo que politicamente inc\u00f3moda. Ou continuamos a gastar recursos hospitalares de alta complexidade em perman\u00eancias que s\u00e3o, na verdade, sociais, ou investimos finalmente em respostas pr\u00f3prias, \u00e0 escala do problema que temos. Continuar como est\u00e1 n\u00e3o \u00e9 cautela nem prud\u00eancia or\u00e7amental. \u00c9 desist\u00eancia disfar\u00e7ada de gest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o faltam diagn\u00f3sticos. Falta decis\u00e3o. E a decis\u00e3o certa j\u00e1 n\u00e3o pode ser pequena, envergonhada ou experimental. Tem de ser proporcional ao bloqueio que se instalou. Mais vagas, mais coordena\u00e7\u00e3o, mais velocidade e, sim, a coragem de pensar em grande. Porque cada cama ocupada por aus\u00eancia de resposta social \u00e9 uma derrota dupla. Para quem espera sair. E para quem, l\u00e1 fora, ainda espera entrar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma forma muito portuguesa de disfar\u00e7ar o falhan\u00e7o: deix\u00e1-lo acontecer devagar, em sil\u00eancio, dentro de um hospital. Uma cama ocupada durante semanas por algu\u00e9m que j\u00e1 teve alta e n\u00e3o tem para onde ir \u00e9 isso mesmo, um falhan\u00e7o a acontecer devagar. 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