{"id":214,"date":"2026-08-04T16:50:45","date_gmt":"2026-08-04T16:50:45","guid":{"rendered":"https:\/\/elfarinha.com\/?p=214"},"modified":"2026-08-04T16:50:46","modified_gmt":"2026-08-04T16:50:46","slug":"a-ia-vai-transformar-a-economia-mas-talvez-nao-da-forma-que-imaginamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/elfarinha.com\/index.php\/2026\/08\/04\/a-ia-vai-transformar-a-economia-mas-talvez-nao-da-forma-que-imaginamos\/","title":{"rendered":"A IA vai transformar a economia. Mas talvez n\u00e3o da forma que imaginamos."},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos dias li o excelente artigo de Charles I. Jones, <strong>\u201cAI and Our Economic Future\u201d<\/strong>, publicado no <em>Journal of Economic Perspectives<\/em>. \u00c9 uma leitura obrigat\u00f3ria para quem acompanha o impacto econ\u00f3mico da intelig\u00eancia artificial. O artigo tamb\u00e9m est\u00e1 dispon\u00edvel como <em>working paper<\/em> no <a href=\"https:\/\/www.nber.org\/papers\/w34779\">NBER: A.I. and Our Economic Future<\/a> (NBER).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tese de Jones \u00e9 elegante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por um lado, a IA poder\u00e1 tornar-se a tecnologia mais transformadora da hist\u00f3ria, iniciando um ciclo em que melhores modelos criam melhores modelos, acelerando a inova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, a produtividade e, eventualmente, o crescimento econ\u00f3mico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro, o autor introduz um conceito particularmente interessante: os <strong>\u201cweak links\u201d<\/strong> (elos fracos). A economia funciona como uma corrente. N\u00e3o basta automatizar uma parte das tarefas. Enquanto existirem atividades cr\u00edticas que continuem dependentes de pessoas, de institui\u00e7\u00f5es ou de processos lentos, esses elos limitam todo o sistema. \u00c9 uma explica\u00e7\u00e3o convincente para o facto de termos hoje computadores milh\u00f5es de vezes mais poderosos do que h\u00e1 cinquenta anos, sem sermos milh\u00f5es de vezes mais produtivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um argumento s\u00f3lido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas ser\u00e1 suficiente?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na minha opini\u00e3o, h\u00e1 alguns pressupostos que merecem ser discutidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro \u00e9 que <strong>mais intelig\u00eancia conduz automaticamente a mais crescimento econ\u00f3mico<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na realidade, a economia raramente \u00e9 limitada apenas pela capacidade de pensar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Basta olhar para alguns exemplos recentes. A constru\u00e7\u00e3o de uma nova f\u00e1brica de semicondutores da TSMC ou da Intel demora anos, mesmo existindo o conhecimento t\u00e9cnico necess\u00e1rio, porque exige <strong>financiamento<\/strong> de dezenas de milhares de milh\u00f5es de euros. A expans\u00e3o da energia nuclear ou da energia e\u00f3lica \u00e9 frequentemente atrasada por <strong>regulamenta\u00e7\u00e3o<\/strong>, licenciamento ambiental e processos judiciais. A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica depende de <strong>mat\u00e9rias-primas<\/strong> como l\u00edtio, cobre e terras raras, cuja extra\u00e7\u00e3o continua limitada por capacidade mineira e cadeias de abastecimento. As <strong>decis\u00f5es pol\u00edticas<\/strong> podem acelerar ou travar setores inteiros, como aconteceu com os incentivos europeus aos ve\u00edculos el\u00e9tricos ou com as restri\u00e7\u00f5es impostas aos chips avan\u00e7ados exportados para a China. Os <strong>conflitos geopol\u00edticos<\/strong>, como a guerra na Ucr\u00e2nia ou as tens\u00f5es entre os Estados Unidos e a China, alteraram cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o, pre\u00e7os da energia e acesso a tecnologias cr\u00edticas. Existe ainda a <strong>resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a<\/strong> dentro das organiza\u00e7\u00f5es: muitos hospitais continuam a utilizar processos em papel, e muitas administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas operam com sistemas inform\u00e1ticos de h\u00e1 d\u00e9cadas, apesar de existirem solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas muito superiores. Finalmente, as pr\u00f3prias <strong>institui\u00e7\u00f5es<\/strong> e os <strong>incentivos econ\u00f3micos<\/strong> moldam a velocidade da inova\u00e7\u00e3o. Uma empresa pode ter acesso \u00e0 melhor IA dispon\u00edvel, mas se os gestores forem avaliados apenas pelos resultados trimestrais, ou se a legisla\u00e7\u00e3o criar barreiras \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de novas tecnologias, a inova\u00e7\u00e3o ficar\u00e1 inevitavelmente mais lenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma IA extraordinariamente inteligente n\u00e3o elimina automaticamente esses constrangimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro ponto prende-se com a pr\u00f3pria ideia dos \u201cweak links\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jones imagina a economia como uma corrente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas talvez a economia moderna se pare\u00e7a mais com uma rede.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando surge um gargalo, empresas reorganizam cadeias de abastecimento, substituem fornecedores, alteram produtos, automatizam processos ou criam novos mercados. A pandemia mostrou precisamente essa capacidade de adapta\u00e7\u00e3o. Os elos fracos existem, mas nem sempre permanecem onde estavam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m me parece discut\u00edvel assumir que <strong>intelig\u00eancia equivale a produtividade<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma diferen\u00e7a enorme entre descobrir uma solu\u00e7\u00e3o e conseguir implement\u00e1-la em larga escala. Muitas das maiores dificuldades econ\u00f3micas s\u00e3o institucionais, n\u00e3o cognitivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe ainda uma quest\u00e3o frequentemente esquecida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Grande parte do valor criado pela IA poder\u00e1 nunca aparecer nas estat\u00edsticas tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como medir corretamente um tutor personalizado dispon\u00edvel vinte e quatro horas por dia? Ou um assistente cient\u00edfico capaz de acelerar investiga\u00e7\u00e3o? Ou ferramentas que eliminam horas de trabalho administrativo? O PIB sempre teve dificuldade em medir o valor dos bens digitais. \u00c9 poss\u00edvel que estejamos perante uma transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica muito maior do que aquela que os indicadores convencionais conseguir\u00e3o captar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mercado de trabalho \u00e9 outro ponto onde mantenho algumas reservas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jones sugere que muitas profiss\u00f5es ser\u00e3o transformadas e n\u00e3o eliminadas, utilizando o exemplo dos radiologistas, cuja produtividade aumentou sem que a profiss\u00e3o desaparecesse. \u00c9 um argumento plaus\u00edvel. Mas a velocidade da IA pode tornar esta transi\u00e7\u00e3o diferente das anteriores revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. A capacidade de adapta\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, das universidades e das empresas poder\u00e1 n\u00e3o acompanhar o ritmo da tecnologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, h\u00e1 uma quest\u00e3o que considero central.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Grande parte do debate sobre IA continua concentrada na produtividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o verdadeiro desafio seja outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quem ficar\u00e1 com os ganhos dessa produtividade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, os modelos mais avan\u00e7ados, os chips, os centros de dados e a infraestrutura necess\u00e1ria para desenvolver IA de fronteira est\u00e3o concentrados num n\u00famero muito reduzido de empresas. Mesmo que a economia cres\u00e7a significativamente, isso n\u00e3o garante uma distribui\u00e7\u00e3o mais equilibrada da riqueza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez a pergunta mais importante deixe de ser <em>quanto a IA far\u00e1 crescer o PIB<\/em> e passe a ser <em>como esse crescimento ser\u00e1 distribu\u00eddo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final, continuo a considerar o artigo de Charles Jones uma das melhores an\u00e1lises econ\u00f3micas publicadas este ano sobre intelig\u00eancia artificial. N\u00e3o porque apresente respostas definitivas, mas precisamente porque organiza o debate de forma rigorosa e intelectualmente honesta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria da IA provavelmente n\u00e3o ser\u00e1 escrita apenas pelos algoritmos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser\u00e1 escrita, sobretudo, pelas institui\u00e7\u00f5es, pelos incentivos econ\u00f3micos e pelas decis\u00f5es pol\u00edticas que escolhermos tomar nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dias li o excelente artigo de Charles I. Jones, \u201cAI and Our Economic Future\u201d, publicado no Journal of Economic Perspectives. \u00c9 uma leitura obrigat\u00f3ria para quem acompanha o impacto econ\u00f3mico da intelig\u00eancia artificial. O artigo tamb\u00e9m est\u00e1 dispon\u00edvel como working paper no NBER: A.I. and Our Economic Future (NBER). 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