{"id":234,"date":"2026-10-17T01:35:49","date_gmt":"2026-10-17T01:35:49","guid":{"rendered":"https:\/\/elfarinha.com\/?p=234"},"modified":"2026-10-17T01:50:06","modified_gmt":"2026-10-17T01:50:06","slug":"o-dogmatismo-de-quem-combate-o-dogmatismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/elfarinha.com\/index.php\/2026\/10\/17\/o-dogmatismo-de-quem-combate-o-dogmatismo\/","title":{"rendered":"O dogmatismo de quem combate o dogmatismo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ensaio de opini\u00e3o | Ideologia, pensamento cr\u00edtico e os limites da raz\u00e3o pol\u00edtica<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma pergunta que me parece particularmente interessante quando discutimos ideologias: o que nos levaria a mudar de opini\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta surgiu-me na sequ\u00eancia da leitura do artigo <a href=\"https:\/\/www.morpha.it\/pt\/posts\/idealismo-ideologico-e-suas-falacias\/\">\u00abIdealismo ideol\u00f3gico e suas fal\u00e1cias\u00bb, publicado no Morpha<\/a>. O texto aborda uma quest\u00e3o importante: a tend\u00eancia para proteger as nossas convic\u00e7\u00f5es de argumentos ou evid\u00eancias que as possam contrariar. Recorre a fal\u00e1cias conhecidas e defende que as ideias devem ser confrontadas com a realidade e com os resultados que produzem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Concordo com a preocupa\u00e7\u00e3o de fundo. Ainda assim, fiquei com vontade de levar a discuss\u00e3o um pouco mais longe. Afinal, tamb\u00e9m podemos construir uma teoria sobre os erros dos outros sem perceber inteiramente os nossos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta parece simples. Podemos at\u00e9 responder que mudamos quando os factos demonstram que estamos errados, quando encontramos argumentos melhores ou quando percebemos que as nossas convic\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o resistem ao confronto com a realidade. \u00c9 uma resposta razo\u00e1vel. O problema \u00e9 que, quando estamos realmente envolvidos numa discuss\u00e3o, raramente as coisas s\u00e3o t\u00e3o simples.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Encontramos explica\u00e7\u00f5es para os resultados de que n\u00e3o gostamos. Desconfiamos dos dados que contrariam as nossas expectativas. Somos mais exigentes com os argumentos dos outros do que com os nossos. E, por vezes, conseguimos fazer tudo isto com a sincera convic\u00e7\u00e3o de que estamos apenas a defender a verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi a leitura do artigo Idealismo ideol\u00f3gico e suas fal\u00e1cias, publicado no Morpha, que me levou a pensar nesta quest\u00e3o. O texto identifica um problema real: a tend\u00eancia para proteger uma ideologia de qualquer evid\u00eancia que possa p\u00f4r em causa os seus pressupostos. Recorre a fal\u00e1cias conhecidas, chama a aten\u00e7\u00e3o para os mecanismos de justifica\u00e7\u00e3o e defende que as ideias devem ser confrontadas com os resultados que produzem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 muito de v\u00e1lido nesta preocupa\u00e7\u00e3o. Ainda assim, fiquei com a sensa\u00e7\u00e3o de que a quest\u00e3o merece ser levada um pouco mais longe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Afinal, tamb\u00e9m podemos construir uma teoria sobre os erros dos outros sem perceber inteiramente os nossos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quando uma ideia deixa de poder perder<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma convic\u00e7\u00e3o torna-se particularmente interessante quando parece ter uma explica\u00e7\u00e3o para tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se os resultados s\u00e3o positivos, confirmam a teoria. Se s\u00e3o negativos, a aplica\u00e7\u00e3o foi defeituosa. Se a experi\u00eancia falha, as condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram as adequadas. Se algu\u00e9m apresenta um caso contr\u00e1rio, esse caso deixa de ser considerado representativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A teoria sobrevive. A realidade \u00e9 que vai perdendo o direito de a contrariar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este mecanismo existe na pol\u00edtica, na economia, nas organiza\u00e7\u00f5es e at\u00e9 nas rela\u00e7\u00f5es pessoais. Reconhecemo-lo com facilidade quando acontece do lado de l\u00e1. J\u00e1 quando est\u00e1 presente nas ideias em que investimos tempo, identidade e esperan\u00e7a, a nossa capacidade de o identificar pode diminuir bastante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas h\u00e1 aqui uma dificuldade que conv\u00e9m n\u00e3o ignorar. Nem toda a explica\u00e7\u00e3o para um resultado negativo \u00e9 uma desculpa. \u00c0s vezes, \u00e9 mesmo a explica\u00e7\u00e3o correta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imaginemos uma reforma dos transportes p\u00fablicos. A empresa respons\u00e1vel anuncia uma redu\u00e7\u00e3o dos custos operacionais e apresenta a medida como um sucesso. Os n\u00fameros confirmam a redu\u00e7\u00e3o. Entretanto, em algumas zonas perif\u00e9ricas, os tempos de espera aumentam e h\u00e1 passageiros que passam a ter mais dificuldades em chegar ao trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi uma boa decis\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depende do que estamos a avaliar. Se o objetivo era reduzir custos, a medida alcan\u00e7ou-o. Se o objetivo inclu\u00eda melhorar o acesso ao transporte, o resultado \u00e9 bastante menos claro. E se a redu\u00e7\u00e3o de custos tiver sido conseguida \u00e0 custa de um servi\u00e7o essencial para pessoas com poucas alternativas, surge uma quest\u00e3o que os indicadores financeiros, por si s\u00f3, n\u00e3o conseguem resolver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O exemplo tamb\u00e9m funciona no sentido inverso. Uma pol\u00edtica pode apresentar resultados negativos nos primeiros meses e vir a produzir benef\u00edcios mais tarde. Pode falhar porque foi mal executada. Pode revelar que os pressupostos iniciais estavam errados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dificuldade est\u00e1 em distinguir estas possibilidades sem escolher antecipadamente aquela que mais nos conv\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 aqui que come\u00e7a o verdadeiro trabalho cr\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>As fal\u00e1cias ajudam. Mas n\u00e3o fazem o trabalho todo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O artigo chama a aten\u00e7\u00e3o para quatro fal\u00e1cias: a fal\u00e1cia do nirvana, a do \u00abnenhum escoc\u00eas de verdade\u00bb, o falso dilema e o espantalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o instrumentos \u00fateis. Conv\u00e9m, contudo, ter cuidado com a facilidade com que os transformamos em r\u00f3tulos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fal\u00e1cia do nirvana aparece quando rejeitamos uma solu\u00e7\u00e3o real porque n\u00e3o corresponde a uma alternativa idealizada. \u00c9 frequente ouvir que determinada medida n\u00e3o serve porque continua a deixar problemas por resolver. Mas tamb\u00e9m pode acontecer que uma solu\u00e7\u00e3o seja, de facto, insuficiente para aquilo que se pretende alcan\u00e7ar. A quest\u00e3o est\u00e1 em saber qual o n\u00edvel de exig\u00eancia razo\u00e1vel, tendo em conta os recursos dispon\u00edveis, os custos e as alternativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O falso dilema \u00e9 outra presen\u00e7a habitual nos debates p\u00fablicos. Apresentam-se duas possibilidades como se n\u00e3o existisse mais nenhuma. Ou aceitamos a proposta tal como foi apresentada, ou somos contra qualquer mudan\u00e7a. Ou defendemos determinada reforma, ou queremos manter tudo na mesma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A realidade costuma ser mais complicada. H\u00e1 solu\u00e7\u00f5es interm\u00e9dias, altera\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, experi\u00eancias que podem ser feitas antes de uma decis\u00e3o definitiva. Mas nem sempre existem alternativas vi\u00e1veis, e tamb\u00e9m seria um erro fingir que todas as decis\u00f5es podem ser adiadas at\u00e9 encontrarmos uma solu\u00e7\u00e3o que satisfa\u00e7a toda a gente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema n\u00e3o est\u00e1 em escolher entre duas op\u00e7\u00f5es. Est\u00e1 em esconder outras possibilidades quando elas existem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fal\u00e1cia do \u00abnenhum escoc\u00eas de verdade\u00bb \u00e9 particularmente interessante porque revela a facilidade com que podemos mudar as regras a meio do jogo. Quando surge um exemplo que contraria a nossa afirma\u00e7\u00e3o, alteramos a defini\u00e7\u00e3o para o excluir. A tese fica protegida, embora o argumento inicial tenha perdido consist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O espantalho, por sua vez, dispensa muitas vezes uma resposta ao argumento real. \u00c9 mais f\u00e1cil atacar uma vers\u00e3o simplificada da posi\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio, atribuir-lhe inten\u00e7\u00f5es que n\u00e3o demonstrou ou apresentar a sua proposta de uma forma que a torna absurda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vemos isto frequentemente nos debates pol\u00edticos. Uma pessoa pede uma avalia\u00e7\u00e3o independente de uma medida e \u00e9 acusada de querer impedir qualquer mudan\u00e7a. Outra questiona os custos de uma reforma e passa a ser apresentada como defensora dos privil\u00e9gios existentes. A discuss\u00e3o desvia-se da quest\u00e3o inicial e transforma-se numa disputa sobre aquilo que cada um supostamente representa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, h\u00e1 uma distin\u00e7\u00e3o que me parece essencial: identificar uma fal\u00e1cia num argumento n\u00e3o demonstra automaticamente que a conclus\u00e3o seja falsa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algu\u00e9m pode chegar a uma conclus\u00e3o correta atrav\u00e9s de um racioc\u00ednio deficiente. E pode construir um argumento formalmente consistente a partir de premissas erradas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As fal\u00e1cias ajudam-nos a perceber onde um racioc\u00ednio falha. Para saber se uma posi\u00e7\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel, precisamos de continuar a investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A ideologia come\u00e7a antes da discuss\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o problema seja mais profundo do que a qualidade dos argumentos que utilizamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As nossas ideias n\u00e3o nascem num vazio. Formam-se a partir da experi\u00eancia, da educa\u00e7\u00e3o, das rela\u00e7\u00f5es que estabelecemos e do ambiente social em que vivemos. Algumas tornam-se parte da nossa identidade. Outras est\u00e3o ligadas \u00e0 profiss\u00e3o, ao grupo a que pertencemos ou \u00e0 forma como interpretamos a nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando uma convic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 questionada, podemos sentir que est\u00e1 a ser questionada tamb\u00e9m uma parte de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto ajuda a perceber por que raz\u00e3o a apresenta\u00e7\u00e3o de novos factos nem sempre altera uma posi\u00e7\u00e3o. A pessoa pode compreender a informa\u00e7\u00e3o e continuar a rejeitar a interpreta\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 proposta. Pode desconfiar da fonte, atribuir maior import\u00e2ncia a outros dados ou considerar que a conclus\u00e3o ignora aspetos fundamentais da quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que essa resist\u00eancia \u00e9 perfeitamente justific\u00e1vel. Noutras, estamos perante aquilo a que a psicologia chama racioc\u00ednio motivado: a tend\u00eancia para avaliar a informa\u00e7\u00e3o de forma favor\u00e1vel \u00e0s conclus\u00f5es que desejamos preservar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio supor que as pessoas mentem conscientemente a si pr\u00f3prias. Muitas vezes, acreditam sinceramente que est\u00e3o a pensar com imparcialidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o torna-se ainda mais interessante quando olhamos para as rela\u00e7\u00f5es entre ideologia e poder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Marx e Engels procuraram compreender a rela\u00e7\u00e3o entre as ideias e as condi\u00e7\u00f5es materiais da vida social. Gramsci aprofundou a quest\u00e3o da hegemonia, mostrando como determinadas conce\u00e7\u00f5es do mundo se tornam dominantes e passam a ser vistas como naturais ou evidentes. S\u00e3o perspetivas diferentes, com problemas e pressupostos pr\u00f3prios, mas que nos ajudam a olhar para al\u00e9m do racioc\u00ednio individual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma ideia pode ser defendida porque algu\u00e9m acredita nela e, ao mesmo tempo, contribuir para manter uma determinada distribui\u00e7\u00e3o de poder. Uma institui\u00e7\u00e3o pode apresentar os seus pr\u00f3prios interesses como se fossem os interesses gerais da sociedade. Uma organiza\u00e7\u00e3o pode confundir aquilo que lhe \u00e9 conveniente com aquilo que \u00e9 melhor para todos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nada disto prova que a ideia seja falsa. Seria uma fal\u00e1cia rejeit\u00e1-la apenas por causa da sua origem ou dos interesses de quem a defende.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas tamb\u00e9m seria ing\u00e9nuo ignorar os interesses e as rela\u00e7\u00f5es de poder quando tentamos compreender por que raz\u00e3o certas ideias s\u00e3o aceites, protegidas ou repetidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A an\u00e1lise ideol\u00f3gica precisa destas duas cautelas: n\u00e3o presumir que uma ideia \u00e9 falsa porque serve determinados interesses e n\u00e3o presumir que \u00e9 verdadeira porque os seus defensores acreditam sinceramente nela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quem escolhe os factos relevantes?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma express\u00e3o que aparece frequentemente quando se discutem decis\u00f5es pol\u00edticas: \u00abTemos de olhar para os resultados\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Concordo. Mas gostava de saber quantas vezes discutimos seriamente o que estamos a chamar resultados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltemos aos transportes p\u00fablicos. Uma administra\u00e7\u00e3o consegue reduzir a despesa, aumentar a produtividade por trabalhador e melhorar alguns indicadores de pontualidade. S\u00e3o resultados relevantes. Ao mesmo tempo, determinadas liga\u00e7\u00f5es desaparecem, os tempos de espera aumentam em algumas zonas e os trabalhadores passam a enfrentar condi\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos medir tudo isto. O problema n\u00e3o \u00e9 a falta de n\u00fameros. \u00c9 decidir como os devemos interpretar e que import\u00e2ncia atribu\u00edmos a cada dimens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o crit\u00e9rio principal for a redu\u00e7\u00e3o de custos, a avalia\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser favor\u00e1vel. Se o acesso ao servi\u00e7o tiver um peso maior, a conclus\u00e3o muda. Se considerarmos que o transporte p\u00fablico tem uma fun\u00e7\u00e3o social que n\u00e3o pode ser avaliada exclusivamente atrav\u00e9s da rentabilidade, teremos de introduzir outros crit\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dados n\u00e3o deixam de ser objetivos por causa disto. Mas a decis\u00e3o sobre aquilo que merece ser medido, comparado e valorizado envolve escolhas que precisam de ser assumidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mesma quest\u00e3o surge na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o, na habita\u00e7\u00e3o e na organiza\u00e7\u00e3o do trabalho. Uma pol\u00edtica pode melhorar os resultados m\u00e9dios e agravar a situa\u00e7\u00e3o de um grupo espec\u00edfico. Uma empresa pode aumentar a produtividade e deteriorar as condi\u00e7\u00f5es em que o trabalho \u00e9 realizado. Um servi\u00e7o pode tornar-se mais barato e menos acess\u00edvel para quem mais precisa dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando algu\u00e9m apresenta os indicadores favor\u00e1veis, \u00e9 leg\u00edtimo perguntar o que ficou de fora. Quando algu\u00e9m denuncia os efeitos negativos, tamb\u00e9m \u00e9 leg\u00edtimo perguntar qual era a situa\u00e7\u00e3o anterior, que alternativas existiam e quais seriam as consequ\u00eancias de n\u00e3o fazer nada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pensamento cr\u00edtico come\u00e7a a perder qualidade quando s\u00f3 fazemos estas perguntas ao lado com que discordamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O problema de provar que uma pol\u00edtica funciona<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 outra dificuldade que merece mais aten\u00e7\u00e3o: a causalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma pol\u00edtica \u00e9 implementada e, algum tempo depois, os indicadores melhoram. Foi a pol\u00edtica que produziu a melhoria? Talvez. Mas podem ter ocorrido outras mudan\u00e7as durante o mesmo per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma empresa reduz custos e melhora os resultados financeiros. Isso pode decorrer de uma reorganiza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de uma altera\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os, de uma melhoria da conjuntura econ\u00f3mica ou de decis\u00f5es tomadas anteriormente. Um servi\u00e7o p\u00fablico melhora a pontualidade depois de uma reforma. Ser\u00e1 necess\u00e1rio perceber se a mudan\u00e7a resultou da reforma ou de altera\u00e7\u00f5es no tr\u00e1fego, na frequ\u00eancia dos servi\u00e7os ou na procura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sucess\u00e3o temporal n\u00e3o basta para demonstrar uma rela\u00e7\u00e3o causal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas ci\u00eancias sociais, esta dificuldade \u00e9 particularmente importante. As pol\u00edticas s\u00e3o aplicadas em contextos diferentes, envolvem pessoas com comportamentos imprevis\u00edveis e produzem efeitos que nem sempre podem ser isolados. Uma solu\u00e7\u00e3o que funciona numa cidade pode n\u00e3o funcionar noutra. Uma reforma que apresenta resultados positivos no curto prazo pode criar problemas que s\u00f3 surgem mais tarde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Karl Popper continua a ser uma refer\u00eancia importante nesta discuss\u00e3o. A sua defesa da cr\u00edtica e da possibilidade de refuta\u00e7\u00e3o ajuda a afastar a ideia de que uma teoria pode ser aceite como verdade definitiva. A sua reflex\u00e3o sobre a mudan\u00e7a social tamb\u00e9m valoriza a possibilidade de corrigir erros e evitar transforma\u00e7\u00f5es cujas consequ\u00eancias sejam imposs\u00edveis de antecipar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma abordagem \u00fatil. N\u00e3o resolve, por\u00e9m, todas as dificuldades da decis\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nem tudo pode ser testado em pequena escala. Algumas mudan\u00e7as institucionais exigem decis\u00f5es abrangentes. Outras envolvem direitos fundamentais ou produzem consequ\u00eancias irrevers\u00edveis. E mesmo quando \u00e9 poss\u00edvel realizar uma experi\u00eancia, algu\u00e9m ter\u00e1 de decidir quem suporta os seus custos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma pergunta que raramente recebe a aten\u00e7\u00e3o devida: quem paga quando uma experi\u00eancia falha?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma pol\u00edtica pode ser apresentada como um teste, mas os seus efeitos recaem sobre pessoas concretas. Se uma experi\u00eancia prejudicar sobretudo quem tem menos recursos, a possibilidade de corrigir a medida mais tarde n\u00e3o elimina o dano j\u00e1 causado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A aprendizagem atrav\u00e9s do erro \u00e9 necess\u00e1ria. A distribui\u00e7\u00e3o dos riscos tamb\u00e9m deve ser discutida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A ci\u00eancia n\u00e3o decide sozinha o que \u00e9 justo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 tentador pensar que, se conseguirmos medir melhor os resultados e aperfei\u00e7oar os m\u00e9todos de an\u00e1lise, os conflitos pol\u00edticos se tornar\u00e3o mais simples. Em parte, isso \u00e9 verdade. Conhecer as consequ\u00eancias prov\u00e1veis de uma decis\u00e3o permite discutir com mais rigor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas h\u00e1 desacordos que n\u00e3o desaparecem com melhores dados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imaginemos que uma reforma aumenta o rendimento total de uma sociedade, mas concentra os ganhos numa pequena parte da popula\u00e7\u00e3o. Os dados podem demonstrar que houve crescimento econ\u00f3mico. N\u00e3o determinam, por si s\u00f3, se a distribui\u00e7\u00e3o dos ganhos \u00e9 justa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou pensemos numa medida que melhora a efici\u00eancia de um servi\u00e7o, mas reduz a sua acessibilidade a pessoas com defici\u00eancia. A an\u00e1lise pode quantificar os efeitos e estimar os custos das alternativas. A decis\u00e3o continua a exigir uma posi\u00e7\u00e3o sobre direitos, prioridades e responsabilidades p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 aqui que os factos e os valores se encontram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">David Hume \u00e9 uma refer\u00eancia importante para pensar a distin\u00e7\u00e3o entre aquilo que acontece e aquilo que consideramos que deve acontecer. Podemos conhecer melhor as consequ\u00eancias de uma pol\u00edtica sem que esse conhecimento resolva automaticamente a quest\u00e3o moral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto n\u00e3o significa que todas as opini\u00f5es tenham o mesmo valor ou que a discuss\u00e3o \u00e9tica seja uma quest\u00e3o de gosto pessoal. Os argumentos morais tamb\u00e9m podem ser examinados, confrontados com os seus pressupostos e avaliados quanto \u00e0 sua coer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Significa apenas que precisamos de reconhecer a natureza das quest\u00f5es que estamos a discutir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se duas pessoas discordam sobre o n\u00famero de trabalhadores necess\u00e1rios para assegurar um servi\u00e7o, os dados podem ajudar a esclarecer o problema. Se discordam sobre o n\u00edvel de servi\u00e7o que a sociedade deve garantir, mesmo quando isso implica custos adicionais, h\u00e1 uma discuss\u00e3o pol\u00edtica e moral que os n\u00fameros n\u00e3o resolvem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Confundir estas dimens\u00f5es pode dar uma apar\u00eancia de neutralidade a decis\u00f5es que envolvem escolhas de valor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O dogmatismo tamb\u00e9m pode esconder-se na linguagem da objetividade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma forma de dogmatismo que n\u00e3o se apresenta como ideologia. Apresenta-se como gest\u00e3o, efici\u00eancia, racionalidade ou simples bom senso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma decis\u00e3o \u00e9 tomada e os seus defensores afirmam que os n\u00fameros falam por si. As alternativas s\u00e3o tratadas como emocionais ou pouco realistas. Os custos s\u00e3o apresentados como inevit\u00e1veis, embora possam resultar de escolhas anteriores. E quem questiona os crit\u00e9rios utilizados \u00e9 acusado de n\u00e3o compreender a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por vezes, a cr\u00edtica \u00e9 injusta. H\u00e1 decis\u00f5es dif\u00edceis que exigem escolhas impopulares, e nem todas as obje\u00e7\u00f5es s\u00e3o bem fundamentadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a linguagem da objetividade n\u00e3o dispensa a discuss\u00e3o sobre os pressupostos. Uma decis\u00e3o pode estar tecnicamente bem executada e continuar a assentar numa escolha pol\u00edtica discut\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acontece tamb\u00e9m o contr\u00e1rio. Uma proposta pode ser defendida em nome da justi\u00e7a social e continuar a produzir resultados injustos. A inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o substitui a avalia\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por isso que me parece insuficiente dividir o debate entre quem acredita na realidade e quem est\u00e1 preso \u00e0 ideologia. Todos interpretamos a realidade a partir de pressupostos, mesmo quando n\u00e3o os reconhecemos. A diferen\u00e7a est\u00e1 na forma como lidamos com eles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem defende uma reforma deve explicar o que pretende alcan\u00e7ar, que custos admite, que efeitos considera aceit\u00e1veis e em que circunst\u00e2ncias estaria disposto a mudar de posi\u00e7\u00e3o. Quem critica a reforma deve sujeitar-se \u00e0 mesma exig\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o basta dizer que a proposta vai falhar. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso explicar porqu\u00ea, apresentar alternativas e aceitar que essas alternativas sejam avaliadas com os mesmos crit\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Uma cr\u00edtica tem de aceitar ser examinada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi este ponto que me pareceu faltar desenvolver no artigo do Morpha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O autor identifica mecanismos que podem tornar uma ideologia imune \u00e0 cr\u00edtica e apresenta exemplos que ajudam a reconhecer esses erros. Os exemplos s\u00e3o assumidamente hipot\u00e9ticos, o que \u00e9 leg\u00edtimo num texto de natureza conceptual. A demonstra\u00e7\u00e3o de que determinadas fal\u00e1cias existem n\u00e3o exige, por si s\u00f3, um levantamento emp\u00edrico de todos os casos em que ocorrem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dificuldade surge quando passamos da defini\u00e7\u00e3o de um mecanismo para a explica\u00e7\u00e3o do comportamento real das ideologias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para isso, seria necess\u00e1rio analisar casos concretos. Observar como as pessoas justificam decis\u00f5es, verificar se os crit\u00e9rios mudam depois de conhecidos os resultados e comparar a explica\u00e7\u00e3o apresentada com outras interpreta\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. Seria igualmente necess\u00e1rio distinguir a defesa arbitr\u00e1ria de uma posi\u00e7\u00e3o da revis\u00e3o leg\u00edtima de uma hip\u00f3tese perante novas informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem esse trabalho, corremos o risco de reconhecer o fen\u00f3meno com clareza em exemplos abstratos e de o aplicar com demasiada facilidade \u00e0s posi\u00e7\u00f5es de que discordamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pr\u00f3prio conceito de \u00abidealismo ideol\u00f3gico\u00bb merece, por isso, ser submetido ao exame que prop\u00f5e.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que evid\u00eancia levaria o autor a rever a sua defini\u00e7\u00e3o? Como distinguiria uma justifica\u00e7\u00e3o constru\u00edda para salvar uma doutrina de uma explica\u00e7\u00e3o que, apesar de contrariar a interpreta\u00e7\u00e3o inicial, se revela correta? Que tipo de desacordo consideraria leg\u00edtimo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o perguntas que n\u00e3o procuram desvalorizar o artigo. Pelo contr\u00e1rio. Se queremos levar a s\u00e9rio a cr\u00edtica ao dogmatismo, temos de permitir que os seus instrumentos sejam questionados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma teoria que pretende identificar a resist\u00eancia injustificada \u00e0 evid\u00eancia deve conseguir distinguir essa resist\u00eancia de outras formas de desacordo. Caso contr\u00e1rio, qualquer posi\u00e7\u00e3o persistente pode acabar classificada como dogm\u00e1tica, dependendo de quem faz a avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E assim voltamos ao princ\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que nos faria mudar de opini\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o tenho a certeza de que exista uma resposta simples para esta pergunta. Depende do assunto, da qualidade da informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel e daquilo que est\u00e1 em jogo. H\u00e1 convic\u00e7\u00f5es que devem mudar perante uma evid\u00eancia contr\u00e1ria bastante clara. Outras exigem uma an\u00e1lise mais demorada, porque os dados s\u00e3o incompletos ou porque envolvem valores que n\u00e3o podem ser reduzidos a uma medi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas talvez possamos come\u00e7ar por uma exig\u00eancia concreta: tornar expl\u00edcitas as condi\u00e7\u00f5es em que aceitar\u00edamos rever uma posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se defendemos uma pol\u00edtica p\u00fablica, que resultados nos levariam a reconhecer que falhou? Se criticamos uma reforma, que evid\u00eancia nos faria admitir que os seus efeitos foram melhores do que esper\u00e1vamos? Se afirmamos que uma organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 a agir de determinada maneira, que informa\u00e7\u00e3o poderia contrariar a nossa interpreta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estas perguntas n\u00e3o garantem que sejamos imparciais. Pelo menos obrigam-nos a reconhecer que as nossas convic\u00e7\u00f5es t\u00eam de responder a alguma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m vale a pena desconfiar da facilidade com que identificamos os erros dos outros. Quando uma pessoa apresenta um argumento fraco, podemos ter raz\u00e3o na cr\u00edtica e continuar errados quanto \u00e0 quest\u00e3o principal. Quando descobrimos uma fal\u00e1cia num discurso pol\u00edtico, isso n\u00e3o nos autoriza a concluir que toda a posi\u00e7\u00e3o defendida \u00e9 falsa. E quando algu\u00e9m discorda de n\u00f3s, a explica\u00e7\u00e3o mais conveniente nem sempre \u00e9 a mais verdadeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez a parte mais dif\u00edcil do pensamento cr\u00edtico seja esta: aceitar que a nossa capacidade de reconhecer os erros dos outros n\u00e3o nos d\u00e1, por si s\u00f3, uma capacidade equivalente para reconhecer os nossos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O dogmatismo n\u00e3o pertence exclusivamente a uma corrente pol\u00edtica, a uma tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica ou a um grupo social. Pode surgir em qualquer lugar onde uma convic\u00e7\u00e3o passe a funcionar como prote\u00e7\u00e3o contra a d\u00favida. Tamb\u00e9m pode surgir na defesa da racionalidade, da ci\u00eancia ou do pensamento cr\u00edtico, quando essas ideias s\u00e3o usadas para encerrar uma discuss\u00e3o em vez de a aprofundar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Continuo a considerar importante que as ideologias sejam confrontadas com a realidade e que as decis\u00f5es sejam avaliadas pelos seus resultados. Mas a realidade raramente chega at\u00e9 n\u00f3s sem media\u00e7\u00e3o. Escolhemos indicadores, interpretamos causas, atribu\u00edmos import\u00e2ncia a determinados efeitos e fazemos op\u00e7\u00f5es sobre aquilo que consideramos justo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho cr\u00edtico come\u00e7a a\u00ed, e n\u00e3o termina quando conseguimos apontar uma fal\u00e1cia ao advers\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fica uma pergunta que vale tanto para quem escreveu o artigo como para quem o l\u00ea, incluindo eu pr\u00f3prio: quando exigimos aos outros que provem aquilo em que acreditam, estamos igualmente dispostos a aplicar esse crit\u00e9rio \u00e0s ideias que mais queremos defender?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre acreditar que podemos estar errados e estar realmente preparado para descobrir em qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Artigo de refer\u00eancia:<\/strong> <a href=\"https:\/\/www.morpha.it\/pt\/posts\/idealismo-ideologico-e-suas-falacias\/\">Idealismo ideol\u00f3gico e suas fal\u00e1cias, Morpha<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ensaio de opini\u00e3o | Ideologia, pensamento cr\u00edtico e os limites da raz\u00e3o pol\u00edtica H\u00e1 uma pergunta que me parece particularmente interessante quando discutimos ideologias: o que nos levaria a mudar de opini\u00e3o? A pergunta surgiu-me na sequ\u00eancia da leitura do artigo \u00abIdealismo ideol\u00f3gico e suas fal\u00e1cias\u00bb, publicado no Morpha. 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