Passageiro arrastado em Enfield Town: Causas e Prevenção de Acidentes Ferroviários

Novembro 16, 2025 Por elfarinha

Um passageiro foi arrastado por um comboio da London Overground na estação de Enfield Town, em Londres, após a sua mão ficar presa nas portas durante o encerramento. O incidente, ocorrido a 17 de julho de 2024, expôs falhas críticas nos sistemas de segurança e procedimentos operacionais, destacando riscos recorrentes nas redes ferroviárias. Este artigo analisa as causas do acidente, explora desafios técnicos e humanos, e propõe medidas para evitar tragédias similares.


O Acidente em Enfield Town

Por volta das 18h07, um passageiro tentou embarcar no comboio enquanto as portas fechavam, resultando no aprisionamento da sua mão. O maquinista, responsável pela operação das portas e partida do comboio (através do sistema driver-only operation), não detetou a situação e iniciou a movimentação. O passageiro foi forçado a correr ao lado do comboio por aproximadamente 60 metros, atingindo 18 km/h, até cair e ser arrastado. Alertado por outros passageiros, o condutor parou o comboio, libertando a vítima, que sofreu ferimentos ligeiros e trauma psicológico.

Falhas identificadas:

  • Sensibilidade das portas: Os comboios da classe 710 envolvidos não possuíam sistemas de deteção de obstruções finas (como dedos) ou tecnologia anti-drag para interromper a partida.
  • Visibilidade do maquinista: O passageiro estava próximo da última porta, tornando-o menos visível nos monitores de CCTV da cabine.
  • Formação: O maquinista subestimou as limitações do sistema de bloqueio de portas (door interlock), que não deteta objetos menores que 30 mm.

Causas de Acidentes “Trapped-and-Dragged”

1. Comportamento do Passageiro

Os passageiros subestimam frequentemente os riscos ao forçar o embarque durante o encerramento das portas. Estudos indicam que 40% dos utilizadores acreditam que as portas reabrirão automaticamente, semelhante a elevadores, uma perceção errónea que leva a comportamentos de risco. No caso de Enfield, o passageiro era um utilizador habitual e provavelmente confiou em experiências anteriores.

2. Limitações Técnicas dos Sistemas de Portas

  • Bloqueio insensível: O sistema door interlock confirma apenas o encerramento completo das portas, ignorando obstruções finas.
  • Design das portas: As portas dos comboios classe 710 possuem selos rígidos (“sharks teeth”) que dificultam a libertação de objetos presos.
  • Falta de tecnologia avançada: Sensores de borda sensível e sistemas anti-drag (utilizados noutros modelos Aventra) estavam ausentes.

3. Falhas Operacionais

  • Verificação visual inadequada: Os maquinistas dependem de monitores de CCTV para verificar as portas, mas ângulos limitados e distrações comprometem a eficácia.
  • Procedimentos de partida: Em estações não monitorizadas (como Enfield Town), a responsabilidade recai exclusivamente sobre o maquinista, aumentando a carga cognitiva.

4. Fatores Sistémicos

Incidentes similares ocorreram em Wood Street (2022), Seven Sisters (2022) e Ealing Broadway (2024), indicando padrões recorrentes em comboios sem tecnologia atualizada.


Medidas de Prevenção

1. Tecnologias de Deteção Avançada

  • Sensores de obstrução: Sistemas como sensitive door edges detetam objetos a partir de 5 mm, interrompendo a partida do comboio.
  • Sistemas anti-drag: Monitorizam o arrasto contínuo e desligam a tração automaticamente.
  • Inteligência Artificial: Câmaras com algoritmos de reconhecimento de obstáculos podem alertar maquinistas em tempo real.

2. Redesenho de Portas e Plataformas

  • Portas com selos flexíveis: Facilitam a libertação de objetos presos.
  • Portas de separação de plataforma (platform screen doors): Impedem o acesso às linhas e sincronizam com as portas do comboio, reduzindo tentativas de embarque tardio.

3. Formação Reforçada

  • Simuladores de risco: Demonstram as limitações do door interlock e consequências de partidas com obstruções.
  • Protocolos de confirmação: Inspeção visual direta (quando possível) e confirmação por rádio com equipa em terra em estações críticas.

4. Campanhas de Sensibilização

  • Sinalização clara: Avisos visuais e sonoros sobre os riscos de forçar portas.
  • Redes sociais: Vídeos educativos (como os lançados pela London Overground) mostrando cenários reais de acidentes.

5. Atualização da Frota

A substituição de comboios classe 710 por modelos com tecnologia anti-drag e sensores é prioritária. Empresas como a MTR (Elizabeth Line) já adotaram estas medidas após incidentes similares.


Conclusão

O acidente em Enfield Town não foi isolado, mas um reflexo de deficiências sistémicas na segurança ferroviária. Combater o problema exige a integração de tecnologia, formação rigorosa e mudança cultural entre passageiros. Investimentos em sensores inteligentes, portas de separação de plataforma e campanhas educativas são essenciais para transformar lições aprendidas em ações concretas, garantindo que tragédias similares não se repitam.