A quem escolhemos dar razão na greve geral?

Dezembro 16, 2025 Por elfarinha

A greve geral não é uma interrupção; é um sobressalto de consciência. É o momento em que os corpos se colocam no lugar das palavras que ninguém quis ouvir, quando o cansaço e a inquietação deixam de caber dentro de reuniões “produtivas” e relatórios bem arrumados.

O sentido de dizer basta

Há quem só veja barulho, transtorno, atrasos nos transportes, serviços parados. Mas por baixo desse ruído imediato há um léxico mais discreto: medo de perder direitos, salários que não chegam ao fim do mês, vidas apertadas entre recibos e promessas de “contenção” sem prazo de validade. A greve é, muitas vezes, o último instrumento de quem já esgotou todos os outros modos de dizer “isto assim não é justo”.

Quem faz greve arrisca: perde salário, enfrenta olhares tortos, carrega a suspeita de “radical” ou “ingrato”. Não é um gesto leve, nem romântico. É um cálculo moral: o de aceitar um dano presente para tentar travar um dano maior, mais silencioso, que se instala devagar nas relações de trabalho e na dignidade de quem vive do seu salário.

A simpatia que escolhemos

Podemos olhar para a greve a partir do incómodo de quem fica parado na estação, ou a partir da inquietação de quem, há anos, se sente parado na sua própria vida profissional. A simpatia moral faz‑se disso: de decidir com quem nos sentamos, por instantes, dentro da pele. Se nos deixarmos habitar, por um momento, pelo corpo exausto de quem trabalha por menos do que vale, a greve muda de figura: deixa de ser capricho e começa a parecer alerta.

Não se trata de sacralizar greves, sindicatos ou palavras de ordem. Trata‑se de reconhecer que há, ali, um princípio de coragem: o de quem aceita ser impopular para pôr na agenda aquilo que as estatísticas suavizam e a retórica política adia. A greve é imperfeita, mas é um dos poucos mecanismos em que os “afetados” conseguem, de facto, afetar o curso das coisas.

Um apelo à escuta

O país não precisa de mais trincheiras morais; precisa de mais escuta. Em vez de nos limitarmos a perguntar “quanto custa a greve?”, talvez devêssemos perguntar “quanto custa o que a tornou necessária?”. Que erosão de confiança, que acumulação de pequenos abusos, que desproporção entre esforço e reconhecimento a antecederam?

No fim, cada um decide o lugar onde se coloca. Mas talvez ganhássemos todos se, antes de julgar, concedêssemos aos grevistas o benefício da dúvida: o de que não lutam apenas por si, mas por um padrão mínimo de respeito que, mais tarde ou mais cedo, nos abrange a todos. Porque quando alguém diz “basta” em público, está também a dar linguagem a muitos que ainda não conseguem, ou não podem, dizê‑lo.

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