Dinamarca: quando os sindicatos saem da caixa dos clichés

Dezembro 16, 2025 Por elfarinha

Há palavras que repetimos até à exaustão – “modelo nórdico”, por exemplo – sem nunca lhes tocar verdadeiramente. Soa bem, conforta, dá a ideia de que algures a norte há um manual de instruções perfeito, pronto a importar. O artigo de Henning Jørgensen sobre o papel dos sindicatos na Escandinávia nos anos 90 faz precisamente o contrário: tira o mito do pedestal e mostra como, na Dinamarca, tudo assenta em escolhas muito concretas, muito terrenas.

Na Dinamarca, os sindicatos não foram varridos pela globalização nem encostados ao canto por uma vaga neoliberal. Continuaram no centro do tabuleiro. Não como figuras decorativas, nem como comentadores profissionais do desastre permanente, mas como parte da mecânica fina que decide políticas de emprego, proteção social, reformas difíceis.

Em vez de uma teia opaca de leis, há outra arquitetura:

– negociação coletiva forte,

corporativismo administrativo (esse palavrão que, na prática, significa sindicatos sentados em conselhos, comissões, órgãos onde as políticas se desenham e se afinam),

– e um hábito antigo de falar antes de rebentar.

O Estado não dita tudo por decreto.

Muita coisa – salários, tempos de trabalho, condições – é negociada entre sindicatos e empregadores. Quando falha, há um sistema próprio de resolução de conflitos, rápido, previsível, sem o épico arrastado da nossa justiça laboral. Os acordos passam pelo crivo dos sócios. Há rotina, mas também há ritual – e isso dá legitimidade.

A tal “flexicurity” de que se fala tanto não nasceu num power point.

É a soma de um mercado de trabalho flexível com:

– seguros de desemprego robustos, geridos em estreita ligação com os sindicatos,

– políticas ativas de emprego pensadas e geridas em conselhos regionais tripartidos: Estado, municípios, empregadores, sindicatos.

Quando se muda a política de ativação, os sindicatos não acordam para o assunto no telejornal da noite. Estiveram lá antes, durante e depois. São co‑autores – e corresponsáveis.

Também na Dinamarca houve dor: desemprego alto, pressão orçamental, envelhecimento.

Houve cortes no tempo máximo de acesso ao subsídio de desemprego, houve exigência acrescida, houve reformas nas pensões e nas políticas de ativação. A diferença é que não foram cirurgias feitas à revelia. Foram negociadas. Os sindicatos trocaram algumas cedências por mais formação, mais requalificação, melhores serviços – creches, por exemplo – que permitem, de facto, que mais gente trabalhe.

Outra diferença é menos vistosa, mas decisiva: os sindicatos dinamarqueses não vivem só da presença em “prime time”. Estão diariamente:

– em reuniões com ministérios, autarquias, administrações;

– em conselhos de emprego, órgãos de política social, espaços onde o detalhe conta;

– a falar de salários, sim, mas também de inclusão, parentalidade, serviços públicos, futuro do trabalho.

O velho corporativismo não desapareceu: reajustou‑se.

Menos grandes comissões formais, mais participação estável onde as políticas ganham corpo. Ao lado disto tudo, uma palavra silenciosa atravessa o artigo de Jørgensen: confiança. Confiança para negociar, para cumprir, para voltar à mesa mesmo depois do conflito. Confiança como infraestrutra invisível sem a qual “modelo” nenhum se aguenta.

E Portugal?

Aqui, continuamos a invocar o “modelo nórdico” como se fosse um mito literário – bonito, mas inalcançável. Talvez valha a pena fazer a pergunta de outra forma:

o que fazemos nós com a energia política dos sindicatos?

Gastamo‑la em confrontos simbólicos, em indignações de ciclo curto, em guerras de declarações?

Ou investimo‑la em estruturas estáveis de concertação, com calendário, dados partilhados, compromisso explícito sobre reformas que não cabem num soundbite?

A experiência dinamarquesa não é uma epifania cultural de um povo “melhor do que nós”. É, no fundo, uma escolha:

pôr sindicatos e empregadores a trabalhar dentro das instituições, todos os dias, em vez de os deixar viver apenas nas manchetes e nos piquetes.

Talvez o “modelo nórdico” comece exatamente aí – no que não se vê.

Artigo citado:https://shs.cairn.info/article/RFAS_034_0151/pdf?lang=fr

#Trabalho #Sindicatos #ModeloNórdico #Dinamarca #PolíticasPúblicas #NegociaçãoColetiva #Flexicurity #EstadoSocial