Quando a simpatia moral nos diz algo que a economia não diz

Dezembro 16, 2025 Por elfarinha

Há trezentos anos, Adam Smith escreveu uma coisa que as redes sociais ainda não conseguem digerir muito bem: a moralidade não nasce de números, mas de simpatia. E a simpatia é sempre uma escolha do lugar onde nos colocamos.

Smith dizia que aprovamos as boas ações quando conseguimos sentir a gratidão daqueles que as recebem. Mas há uma subtileza importante: essa gratidão não precisa ser real; basta que nos imaginemos no lugar deles e sintamos que, se fôssemos eles, seríamos gratos. É simpatia indireta, é projeção emocional, é o exercício de nos habitarmos na pele dos outros antes de julgar.

Apliquemos isto à greve geral.

O que Smith veria na greve

Quando milhares de pessoas arriscam salário, reputação, a etiqueta de “irresponsáveis” para parar o país, estão a fazer exatamente o que Smith descreve como um ato meritório: estão a defender algo que beneficia a comunidade toda, a longo prazo. E quando me coloco no lugar de uma enfermeira com 15 anos de profissão a ganhar mal, de um motorista de transportes urbanos a trabalhar 12 horas por um salário que não acompanha a inflação, de um técnico administrativo vendo-se a si próprio numa carreira sem mobilidade – quando me coloco lá, verdadeiramente, eu também sentiria gratidão àquele que arrisca para que eu não continue a ser progressivamente esmagado.

A greve é, nesse sentido, um ato de mérito moral: é a defesa de algo que não beneficia apenas aquele que a faz, mas beneficia a possibilidade coletiva de vidas dignas, salários que correspondam ao esforço, direitos que não se desgastem em silêncio.

O que julgamos quando julgamos a greve

Mas Smith ensina-nos também que há outro movimento: podemos olhar para a greve a partir do ressentimento de quem ficou parado na estação, de quem viu a sua consulta médica adiada, de quem perdeu um dia de vendas. E esse ressentimento é real, é legítimo também. O problema não é que o ressentimento exista, Smith sabe bem que ele existe. O problema é quando deixamos de fazer o exercício de simpatia dupla: primeiro, ouvir o ressentimento de quem sofre na estação; depois, ouvir também o ressentimento anterior, mais profundo, de quem trabalha há anos e se sente esquecido.

Smith avisa-nos que quando a nossa indignação é desproporcional, quando vemos na greve apenas capricho político e não vemos nela a acumulação de pequenas injustiças, quando escolhemos sistematicamente não nos colocar no lugar dos grevistas , aí, a nossa simpatia falha. Deixa de ser moral, deixa de ser pensamento, torna-se apenas defesa reflexa de um conforto ameaçado.

A grande lição: escolhemos com quem simpatizamos

Smith não diz que uma greve é sempre correta, ou que sempre falha. Diz que a aprovação ou desaprovação depende do lugar onde nos colocamos. E há quem, conscientemente, escolha colocar-se apenas na posição de quem sofre incómodo, recusando-se a ocupar, ainda que por instantes, o corpo de quem precisa dessa paralisação.

Essa recusa da simpatia dupla, essa insistência em ver apenas o dano imediato da greve e não o dano anterior que a gerou, essa é talvez a verdadeira impropriedade moral. Porque Smith ensina-nos que a moralidade vive nessa dificuldade de nos habitarmos em múltiplos corpos, e que abdicamos dela quando escolhemos a facilidade.

Portanto, antes de condenarmos a greve geral, talvez a pergunta correta não seja “porquê agora?”, mas “em que lugar do mundo estou a ver isto?”

Se estou apenas na estação irritado, perdi a humanidade do outro lado da porta.

Se me coloco no corpo de quem trabalha anos sem reconhecimento, ganho o direito a dizer que compreendo por que essa porta tinha de fechar.

Leitura recomendada: Teoria dos Sentimentos Morais, Adam Smith.

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