Quando o Medo se Torna Companhia de Trabalho

Dezembro 16, 2025 Por elfarinha

Há certos textos que chegam quando a gente anda a andar pela vida fingindo que não vê aquilo que está ali, bem à vista de todos. Trabalho e Medo, Estratégias Defensivas e Sustentabilidade das Relações de Trabalho é um desses textos incómodos. Incómodo porque nos força a nomear aquilo que preferíamos ignorar.

Compreendo quando começo a ler que isto não é apenas um artigo académico. É um grito abafado de quem passou a vida a observar homens e mulheres a trabalhar em circunstâncias que nos deviam fazer estranheza, mas que a gente, com a naturalidade de um adormecimento, aceitou como normal.

Pensa-se no trabalho como libertação, como realização. Mas há outra história que costuma ficar silenciada. Há uma história mais velha, mais escura, em que o trabalho é punição. A gente traz isto vindo de muito longe, das religiões que transformaram a penosidade em salvação, como se a dor fosse necessária para sermos dignos.

Mas depois chegou o pós-1980. E aí ficou tudo mais perverso. O trabalho deixou de ter a sua desculpa religiosa. Ficou apenas exploração disfarçada em produtividade, em competência, em modernidade.

O que a Carla Carneiro e o João Areosa vêm fazer aqui é dissecar isto tudo. Trazem a Psicodinâmica do Trabalho, que é este campo que surgiu há três décadas e que tem Christophe Dejours como mentor. E Dejours percebeu algo crucial: o trabalho é profundamente ambivalente. Pode dar-te a vida ou pode tirar-ta. Pode ser prazer ou pode ser sofrimento. Pode fazer de ti uma pessoa inteira ou pode fragmentar-te completamente.

Há uma cena que eles descrevem e fico com isso na cabeça. É o tipo que trabalha num arranha-céus, limpando vidros à altura do vigésimo primeiro andar. Está preso por um cinto de segurança, está no andaime seguro, todas as medidas estão tomadas. Mas há um risco que não se vê. É o risco residual. É o vento que pode vir de repente. É a vertigem. É aquela coisa que não desaparece, por muito que a gente se proteja.

E isto é a vida de tantas pessoas.

O que é para mim mais revelador é perceber como o medo não é apenas medo físico. O medo é inteligência primitiva. O medo é a razão pela qual a humanidade sobreviveu enquanto espécie. Mas quando o medo se torna permanente, quando fica ali a marinar-se todos os dias, transforma-se em algo mais perigoso.

Aí é que entram as estratégias defensivas. A gente constrói defesas. Umas vezes negamos o perigo. Outras vezes tomamos substâncias. Há quem beba, quem consuma psicotrópicos, quem desafie o risco de maneira irracional. E a coisa complicada é que isto só funciona se toda a gente fizer. Se há alguém que recusa, esse fica de fora. É expulso. É punido pelo grupo.

A gente sofre sozinho. E esse sofrimento solitário transforma-se num colchão de silêncio que sustenta toda a maquinaria. Porque se começarmos a falar, se começarmos a nomear, tudo entra em colapso.

Depois há a tal questão da precariedade. Isto é talvez o mais visceral do texto. A gente toda vive do trabalho. Toda a gente. E quando o trabalho é precário, instável, quando fica sempre em risco de desaparecer, a gente vive com um medo diferente. Um medo que não é só do risco do trabalho. É medo de não ter comida, medo de ficar desabrigado, medo da subsistência.

Dejours fala disto com uma clareza que dói. Diz que esse medo permanente quebra a reciprocidade entre trabalhadores. Isola. Cada um vira para si. E há uma coisa que fica especialmente crua na forma como o escreve: o medo separa os que trabalham dos que não trabalham. Separa os incluídos dos excluídos. E isso cria uma fratura irreparável na solidariedade humana.

Porque quem está desempregado sofre de uma forma. Quem trabalha em precariedade sofre de outra. E essa sofreguidão diferente impede que se vejam um ao outro.

E então aparece a Clínica Psicodinâmica do Trabalho como uma tentativa de resposta.

Não é uma resposta confortável. É uma resposta que exige exposição. Exige que as pessoas se reúnam. Exige que falem do seu sofrimento. Exige que nomeiem o que se passa. E há um caso que usam, o das Oficinas de Mermot em França, que mostra como isto pode funcionar.

Havia ali suicídios. Havia ali adoecimento psíquico generalizado. E em vez de mandarem consultores para dizerem o que fazer, fizeram rodas de conversa. Deixaram as pessoas falar. Criaram espaços onde podiam nomear o que ninguém quer dizer em voz alta. E uma equipa se destacou, uma que cantava enquanto trabalhava. Porque era a única que tinha liberdade. A única que era tratada com confiança.

Isto é tão simples que assusta.

No fundo é isto. A gente cria defesas porque sofre. As defesas funcionam até que deixam de funcionar. E enquanto isto tudo acontece, a gente fica sozinha com aquilo. O silêncio alimenta tudo isto.

Ler este texto é como abrir uma porta que a gente não quer abrir. Porque do outro lado está a verdade sobre como a gente trabalha. E essa verdade é que muita gente está com medo. Medo do risco, medo da precariedade, medo de cair. E em vez de falarmos disto, a gente faz de conta que não vê.

Mas alguém tem de dizer. Alguém tem de nomear. Alguém tem de criar espaços onde isto possa ser dito sem que a pessoa seja expulsa do grupo.

Este texto faz isso. E por isso é importante. E por isso é incómodo.

Referência: https://www.researchgate.net/publication/331496829_Trabalho_e_Medo_Estrategias_Defensivas_e_Sustentabilidade_das_Relacoes_de_Trabalho