Quando a vida “não vale a pena”: o que as redes sociais estão a fazer aos nossos jovens
Dezembro 16, 2025Há uma frase que não devia caber em ninguém de 10, 15, 20 anos: “a vida não vale a pena ser vivida”. Mas é isto que um em cada oito jovens portugueses já sentiu, e um em cada nove já chegou a desejar “estar morto”, revela o estudo CARING, agora divulgado no Público. procurem o artigo
Não é um alarmismo moral sobre ecrãs, é estatística crua: mais de um quinto dos jovens passa mais de quatro horas por dia em redes como TikTok, Snapchat ou Instagram, e mais de metade está online, a comunicar, mais de três horas diárias. Nesse tempo, cruzam-se com cyberbullying, discursos de ódio, dicas para emagrecer “demais”, conteúdos sobre automutilação ou formas de cometer suicídio e é precisamente neste grupo que se concentram os níveis mais altos de ideação suicida. A solidão aparece, paradoxalmente, como o sentimento mais forte num mundo permanentemente ligado.
Outros estudos internacionais vão na mesma direção: revisões sistematizadas mostram que mais tempo e, sobretudo, experiências negativas nas redes sociais se associam a maior angústia psicológica, auto-lesão e pensamentos suicidas em adolescentes vulneráveis. Ao mesmo tempo, a investigação mais recente lembra que não é só o “tempo de ecrã” que conta, mas a qualidade da experiência: comparação social tóxica, comentários humilhantes, invisibilidade, tudo isso pesa na balança dos dias em que alguém acorda a desejar desaparecer. Há uma crise de saúde mental juvenil que organismos como a OMS e relatórios sobre direitos das crianças já classificam como “ponto crítico”, agravado pela expansão descontrolada das redes sociais.
O estudo português também fala de travões possíveis: sono decente, corpo em movimento, ar livre, amigos e família que reparam, escolas que não empurram o tema para o corredor. Mas acrescenta uma camada que já não é doméstica, é política: regular plataformas que sabem, há muito, os danos que os seus algoritmos podem amplificar, e ainda assim não accionam todos os mecanismos de proteção. Não se trata de demonizar tecnologia, mas de recusar um modelo de negócio que normaliza o sofrimento como ruído de fundo.
No fim, talvez a pergunta seja: quantas vezes mais aceitaremos ler que “um em cada oito” pensou que a vida não valia a pena antes de admitir que isto não é um desvio, é o retrato do nosso tempo? Falar de suicídio com responsabilidade, dar espaço à vulnerabilidade, ensinar literacia digital crítica e exigir regulação das plataformas não são agendas paralelas, são a mesma urgência. Se este tema te toca de perto, ou se te reconheces em alguma destas frases, não ficas a mais: em Portugal, podes ligar 1411 Linha Nacional de Prevenção do Suicídio ou recorrer às várias linhas de apoio emocional que escutam, em anonimato, a qualquer hora em que a noite pese demais.