Túneis e Incêndios: Quando a Técnica Tropeça na Realidade
Dezembro 16, 2025O incêndio no shuttle de mercadorias do Eurotunnel foi um daqueles momentos em que a técnica tropeça na vida. Túnel adentro, vinte e cinco camiões e duas carrinhas, trinta e duas pessoas, e o tempo a esticar como um elástico em câmara lenta. Não houve mortos. Houve feridos ligeiros. Houve a devastação de um lado do Canal. Houve um túnel que só voltou a respirar meses depois. A origem provável. Um veículo que arde. A propagação que não pede licença.
A investigação conjunta foi clara na sua missão. Não veio distribuir culpas. Veio aprender para não repetir. O olhar demorou-se no essencial. Como se evacua quando o fumo fecha o corpo. Como se combate um fogo onde o espaço é corredor e eco. Como funciona um sistema de segurança quando tudo o testa ao limite.
As falhas foram uma coleção de pormenores que contam mais do que parecem. O comboio parou fora do ponto que alinha a porta de evacuação com a passagem. A porta certa não abriu. Houve passageiros que escolheram a janela como saída. Escolhas de quem respira pouco e precisa de ar já. A língua faltou no ouvido de alguns. A mensagem perdeu-se entre o medo e o ruído.
O tempo, esse, arrastou-se onde devia ter corrido. Abrir uma passagem. Ajustar a ventilação. Garantir segurança elétrica para os bombeiros. Tudo mais lento do que o fogo exige. Equipamentos que falham quando mais fazem falta. Portas que deixam de obedecer no modo elétrico. Hidrantes que cedem ao calor. Válvulas que ficaram fechadas por esquecimento. A rede de 21 kV a cair a meio do esforço. A rádio a falhar até já não.
Há aqui uma lição mais funda. Um sistema de segurança pode ser impecável no papel e cego no uso. Incêndios de 1996 e 2006 tinham deixado notas de rodapé que pediam ações. Ficaram meias. Voltaram como fantasmas técnicos. As chamadas falhas latentes. Arrumações provisórias que viram regra. Tolerâncias que se normalizam. O improviso como rotina.
As 39 recomendações são o mapa para sair do labirinto. Reposicionar marcações de paragem. Ensinar a falar com quem não fala a nossa língua. Dar à primeira intervenção o poder do primeiro minuto. Tornar fiáveis portas, ventilação, água e energia. Reescrever os procedimentos no centro de controlo. Menos alarme. Mais prioridade. E o essencial. Honrar o retorno de experiência. Pegar nos quase acidentes como se fossem avisos escritos em neón.
E agora a pergunta que fica colada à pele. Em Portugal, como estamos. Cumprimos normas europeias para túneis. Sabemos dizer ventilação. Passagens de emergência. Planos com a proteção civil. Temos obra feita e capacidade técnica. Reabilitações que falam de controlo de fumo e saídas em sentido contrário ao perigo. Mas a segurança não é só projeto. É prática. É treino. É auditoria sem cerimónia. É transparência sobre o que quase aconteceu.
Estamos defendidos. Quem garante para lá do selo. Quem arrisca exercícios difíceis com cenários sujos e falhas simultâneas. Quem pergunta até doer. A resposta é eficaz ou apenas suficiente até ao dia em que deixe de ser.
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