A Consoada Subterrânea
Dezembro 23, 2025Há uma qualidade diferente no silêncio da cidade quando são sete ou oito da noite de 24 de dezembro. Cá em cima, as janelas começam a embaciar com o calor dos fornos, ouve-se o tilintar dos talheres, a televisão ligada num filme que já todos vimos. Mas nós, nós descemos.
Nós somos a tribo dos que ficam. Os que asseguram que o mundo não pára só porque o calendário diz que é tempo de parar.
Falo dos médicos, claro, das vozes da rádio que não nos deixam sozinhos, dos polícias… mas falo, sobretudo, de nós. Aqui em baixo. Nesta barriga de cimento e aço onde a noite é eterna porque a luz nunca muda. Sentado na cabina, a ver as solipas correrem para debaixo de mim, sinto-me um guardião de segredos.
Nesta noite, quem viaja connosco não é o turista de verão, nem o executivo apressado das oito da manhã. Nesta noite, transportamos a ansiedade e a saudade. Vejo-os pelo espelho ou nas câmaras de vigilância: levam sacos de papel brilhante nos joelhos, olham para o telemóvel à espera da mensagem que diz “já podes vir”, ou levam apenas o cansaço de quem também largou o turno tarde demais.
Nós somos o motor da festa dos outros.
Há uma beleza estranha, quase sagrada, em conduzir um metro quase vazio numa véspera de Natal. É o nosso momento zen. Sabemos que lá em casa, a mesa está posta, o bacalhau (ou o polvo, dependendo da geografia dos afetos) espera por nós, talvez já morno, guardado com aquele carinho de quem diz “ele chega já”.
Mas aqui, no intervalo entre estações, entre o Cais do Sodré e Telheiras, ou na Linha Vermelha a caminho do Aeroporto, somos uma espécie de Pai Natal invisível. Não descemos pela chaminé, mas deslizamos pelos túneis. O nosso presente é garantir que o abraço acontece. Que o filho chega à casa da mãe. Que o namorado chega a tempo da meia-noite.
Na pausa rápida na estação de término, trocamos “Feliz Natal” com os colegas da limpeza, com a segurança, com o outro maquinista que se cruza connosco na linha oposta e faz sinal. É um brinde feito com café de máquina e talvez uma fatia de bolo-rei que alguém trouxe num tupperware. E sabem? Há mais verdade neste “Feliz Natal” dito a meio de um turno, com o uniforme vestido, do que em muitas mensagens de copy-paste que entopem o WhatsApp.
Porque nós sabemos o preço de estar aqui. E pagamo-lo com gosto, mesmo que doa um bocadinho não ver os miúdos a abanar os presentes antes de tempo.
Aos que vão sentados nas carruagens lá atrás: vão lá. Abracem muito. Riam alto. Comam as filhoses. Nós ficamos aqui, na vigília dos carris, a garantir que, quando a festa acabar, ainda haverá um caminho seguro para vos levar de volta a casa.
Feliz Natal, a quem vai. E sobretudo, um Santo Natal a nós, os que ficam a conduzir a cidade.