Villamanín: O Gordo que Partiu Amigos e Testou o Natal
Dezembro 28, 2025Em Villamanín, esse cantinho perdido de León onde o inverno conta os habitantes com os dedos de uma mão, quinze jovens entre os 18 e os 25 anos, a Comissão de Fiestas, esses heróis anónimos que combatem a morte lenta dos povoados com festas e lotarias, cometeram o erro que virou pesadelo natalício. Compraram décimos do Gordo da Lotería de Navidad, venderam 450 participações a cinco euros cada uma (quatro para o jogo, um para as festas), mas esqueceram-se de consignar cinquenta delas na administração. Sorte grande: calhou-lhes o Gordo. Desgraça maior: essas participações “fantasma” valiam quatro milhões de euros que, juridicamente, evaporaram-se. No bar do Hogar del Pensionista, numa reunião de quatro horas que cheirou a lágrimas e acusações de estafa, o povo dividiu-se: uns gritavam roubo premeditado, outros defendiam o descuido humano. Ao fim, um acordo frágil: a Comissão renuncia aos seus dois milhões, e uma “quita” de 5 a 10% nos prémios válidos tapa o buraco. Mas os jovens? Saem de mãos a abanar, com amigos perdidos e o nome manchado, temendo até pelo futuro profissional. (notícia completa aqui: https://elpais.com/espana/2025–12–27/los-grandes-perdedores-del-gordo-de-navidad-de-villamanin–15-jovenes-de-entre–18-y–25-anos-hoy-hemos-perdido-amigos.html)
O erro que testa a alma humana
Aqui não há vilões de capa preta, mas gente comum a tropeçar na rotina. O descuido, um talão esquecido em casa, revela a fragilidade ética dos grupos voluntários: entusiasmo sem rigor abre portas à desconfiança. Moralmente, evoca Adam Smith na sua Teoria dos Sentimentos Morais: o agente bem-intencionado busca o aplauso do “espectador imparcial”, mas falha quando o erro fere a confiança coletiva. Estes jovens assumiram, renunciaram, mostraram contas bancárias: atos de retificação honrosa que restauram dignidade, ainda que a suspeita persista como nevoeiro leonês. A lição? Transparência não é opcional; é o cimento das comunidades pequenas, onde um sussurro vira escândalo.
Espírito de Natal na forja da unidade
O Natal, com o seu Gordo milagreiro, prometia alegria para um povo que definha; em vez disso, testou o verdadeiro espírito festivo: não o brilho dos milhões, mas a capacidade de perdoar e partilhar o pão amargo. A frase da miúda de 14 anos, “Que mais dá ter mais ou menos, se no fim todos vamos ter?”, é o Evangelho natalício puro: solidariedade sobre ganância, coesão sobre divisão. Os jovens, ao sacrificarem o seu quinhão pelo “bem do povo”, ecoam Bruno no Spaccio: a perseverança comum triunfa do egoísmo. Evitaram tribunais, preservaram o legado do Gordo como bênção coletiva. Mas que preço: “Hoje perdemos amigos”, choram eles. O Natal ensina que o maior prémio é a paz interna, mesmo quando custa fortunas.
Num mundo de comissões e associações, o episódio grita: voluntarismo exige responsabilidade férrea, auditorias, registos, planos B. Erros acontecem, mas a ética reside na resposta: comunicação imediata, sacrifício proporcional, pactos por escrito. Villamanín não se partiu de vez; uniu-se na fragilidade, provando que o espírito natalício, generosidade, perdão, resiliência, forja laços mais fortes que o ouro. No fim, os grandes perdedores são os ricos em lições: prioriza a confiança, que o dinheiro volta, mas os amigos, não sempre.