O passado nunca foi tão perfeito como nos contam
Janeiro 3, 2026Há dias em que o barulho do mundo é ensurdecedor. Olhamos à volta e sentimos que tudo era mais simples antes. Mais arrumado. Mais nosso. É uma nostalgia perigosa esta que nos visita. Porque nos faz acreditar numa memória que muitas vezes não passa de uma invenção.
Li recentemente sobre a ascensão do populismo e fiquei a pensar como tudo isto se prende com a nossa incapacidade de lidar com a complexidade. Queremos respostas fáceis para problemas difíceis. Queremos acreditar que se alguém tem muito é porque nos tirou a nós. É a velha visão do mundo de soma zero onde a riqueza é um bolo que não cresce e onde só nos resta lutar pelas fatias.
Esquecemo-nos do que aprendemos com as luzes do Iluminismo. Esquecemo-nos de que a riqueza e o progresso se criam. Com conhecimento. Com cooperação. Com a tal mistura de saber e fazer que nos permite fintar o caos. Mas o populismo rejeita esta ideia. Prefere dizer-nos que a culpa é dos outros. Das elites. Dos que vêm de fora.
E nessa procura por um culpado acabamos por desejar um salvador. Um líder forte que encarne a nossa vontade e que dispense as regras chatas das instituições. Achamos que os tribunais e as leis e os debates são obstáculos quando na verdade são a única tecnologia que nos protege dos nossos próprios instintos tribais.
Os números mostram que esta tentação está a crescer na Europa e na América. Não é apenas a economia que explica isto. É algo mais fundo. É o medo. É o viés da negatividade que nos faz achar que o mundo está a acabar quando na verdade nunca tivemos tantas ferramentas para o melhorar.
Talvez o ato mais revolucionário hoje seja recusar o grito. Recusar a tribo. E voltar a ter a coragem de debater factos e aceitar que o mundo é complicado. A democracia dá trabalho. A liberdade exige paciência. E o futuro não se constrói a olhar para trás.