Quando a nota tem preço: desigualdade, mérito e a guerra às explicações

Janeiro 8, 2026 Por elfarinha

Na China, a escola sempre teve um segundo andar. Não vinha no projecto, não aparecia nos folhetos, não tinha recreio nem campainha. Era um andar feito de escadas rolantes, de agendas cheias e de uma pergunta curta que pesa como um saco de compras. O teu filho está a acompanhar.

A pergunta não é inocente. Em muitos sítios do mundo, mas ali com uma intensidade própria, acompanhar não é só aprender. É não ficar para trás. É não ser o miúdo que, num teste de matemática, olha para a folha como quem olha para uma janela fechada. E quando a escola pública é o rés do chão, as explicações privadas tornam-se esse segundo andar. Quem sobe, vê mais longe. Quem não sobe, fica a ver os outros a passar.

Foi por isso que o governo decidiu meter-se na vida dos pais e dos cadernos. A política teve um nome de gestão, Dupla Redução, como se o assunto fosse uma optimização de stocks. A ideia era cortar duas coisas. A carga de trabalhos de casa e a carga de explicações. Reduzir pressão e reduzir dependência. E, sobretudo, reduzir aquela injustiça silenciosa que se instala quando as notas começam a depender do extrato bancário.

O gesto mais duro foi este. Proibir, no ensino obrigatório, as explicações com fins lucrativos nas disciplinas do currículo, e travar o negócio que tinha transformado sábados e férias numa extensão do quadro e do giz. Não era uma proibição romântica. Era uma proibição com o cheiro de quem viu um mercado crescer em cima do medo. Medo de falhar exames. Medo de não entrar na escola certa. Medo de não chegar a uma boa universidade. Medo de não conseguir, num país onde a competição é um rio que não abranda.

De repente, o fim de semana passou a ter de ser fim de semana. Pelo menos no papel. As empresas tiveram de se reconfigurar. Houve quem fechasse portas, quem despedisse, quem mudasse de área. E, como sempre, houve quem mudasse o nome às coisas. Porque uma aula de matemática pode passar a chamar-se “pensamento lógico”, e uma explicação de inglês pode ser “competências comunicacionais”. A desigualdade não gosta de ser apanhada em flagrante. Prefere disfarçar-se de suplemento.

No meio disto, há uma personagem que raramente aparece nos comunicados, mas que manda muito. O pai e a mãe que chegam a casa tarde, cansados, e que, mesmo assim, abrem aplicações, fazem contas, procuram horários. Não estão a tentar comprar felicidade. Estão a tentar comprar futuro. E o futuro, quando se sente escasso, vira mercado.

É aqui que a história fica interessante e triste. A política quis cortar a vantagem comprada. Quis impedir que a corrida começasse com alguns já a metros da meta. Quis devolver à escola pública o seu papel de grande niveladora. E, em teoria, isso é uma defesa do comum. Uma tentativa de impedir que a educação se torne um luxo de classe média alta, embrulhado em promessas de “melhor desempenho”.

Mas a vida é teimosa. Quando se fecha uma porta, abre-se uma porta pequena ao lado. Quando se fiscaliza menos, o informal cresce. Quando se proíbe o lucro, inventam-se modelos paralelos. E mesmo quando o Estado acerta na intenção, a realidade lembra que a desigualdade é um animal adaptável. Se não entra pela montra, entra pela garagem.

Ainda assim, há uma mudança que fica, mesmo que não resolva tudo. Fica o sinal político de que o Estado não quer que a educação obrigatória seja um casino em que se aposta dinheiro para tentar comprar probabilidade. Fica a ideia de que uma criança não deve ter de viver num calendário militar para ser considerada competente. Fica, pelo menos, a pergunta em cima da mesa. Que tipo de sociedade se está a construir quando o estudo depois da escola passa a ser uma indústria mais importante do que a própria escola.

E depois há a imagem que se impõe. Uma criança, ao sábado de manhã, com a mochila às costas. Não vai brincar. Vai “adiantar matéria”. Uma expressão tão inocente, tão adulta, tão pouco infantil. Quando o governo diz “não”, talvez esteja a tentar devolver alguma infância. Mas também está a mexer numa ansiedade colectiva. E a ansiedade, quando não pode pagar uma factura oficial, paga por baixo da mesa ou paga com culpa.

No fundo, esta história não é sobre proibir explicações. É sobre a promessa de igualdade. Sobre a ideia, antiga e sempre por cumprir, de que o ponto de partida não devia decidir o ponto de chegada. A China tentou, à sua maneira, travar uma engrenagem que aumentava a distância entre famílias. E, ao fazê-lo, mostrou uma coisa que vale para qualquer latitude. Se a educação é o elevador social, então as explicações privadas são, muitas vezes, o passe rápido para quem já está mais perto do elevador.