Da piada fácil ao apagão de factos: a guerra à Wikipédia
Janeiro 9, 2026Há uma certa elegância na ideia de que o saber cabe inteiro numa página branca com letras azuis sublinhadas. Durante anos, a Wikipédia foi isso: uma promessa de que, se houvesse tempo e curiosidade suficientes, qualquer pessoa poderia ir descascando o mundo, link a link, até chegar a uma espécie de osso da verdade. Depois veio Trump, Musk, a gramática da humilhação em rede, e a enciclopédia passou a alvo. Wokipedia. Dickipedia. De repente, a biblioteca pública do mundo virou saco de pancada num ringue de memes.
A direita radical sempre precisou de inimigos claros. A imprensa. As universidades. As ONG que “vivem de subsídios”. Faltava uma enciclopédia para completar o álbum. A Wikipédia encaixa na perfeição: é global, colaborativa, anónima, cheia de gente que discute fontes às três da manhã em talk pages que ninguém lê. Para um universo político que vive de desconfiar de qualquer mediação, é irresistível. Chamar‑lhe Wokipedia é mais do que um insulto: é uma senha. Quer dizer “não confies em nada do que não controlamos”.
O episódio “Dickipedia” é um compêndio desta nova liturgia. Um bilionário decide oferecer um donativo astronómico se a enciclopédia aceitar rebaixar‑se a piada adolescente. Não é só troça, é poder em exibição, como quem pousa um maço de notas em cima de uma mesa de biblioteca e pergunta “quanto custa destruir isto?”. A palavra, aqui, funciona como grafíti na fachada de um museu: não altera o acervo, mas tenta contaminar o olhar de quem entra. O objetivo não é melhorar a informação; é sujar o chão até ninguém querer entrar descalço.
À volta deste espetáculo nascem projetos alternativos: enciclopédias “cristãs e conservadoras”, plataformas que prometem “neutralidade” mas partem já com rótulo ideológico de origem. A lógica é simples e antiga: se não consigo dominar o espaço comum, construo um condomínio fechado da verdade. Há factos para dentro e factos para fora. Dentro, os heróis são impecáveis, os escândalos são invenções, o racismo é “narrativa”. Fora, tudo é suspeito, contaminado, “woke”.
No meio disto, a Wikipédia continua a ser um sítio confuso, cheio de falhas, enviesamentos, disputas e remendos. Mas é isso que a torna preciosa: o conflito é visível, discutido, reversível. As versões não desaparecem numa cave de servidor; ficam lá, numa cronologia de edições que mostra que a verdade é trabalho, não revelação. Quando a direita radical ligada a Trump atira pedras à Wokipedia ou sonha com Dickipedia, não está só a provocar. Está a ensaiar uma outra coisa: a substituição da dúvida partilhada pela certeza de claque, o fim da praça pública onde se erra à vista de todos.
Talvez a pergunta não seja se a Wikipédia é “woke” ou “conservadora”. Talvez a pergunta seja mais simples e mais inquieta: quem é que ganha quando deixamos de ter um sítio imperfeito, irritante, corrigível, onde qualquer um pode entrar, e passamos a viver em pequenas enciclopédias privadas, feitas à medida da nossa raiva.