Entre o grito e o espelho como o novo fascismo testa os limites da nossa democracia

Fevereiro 1, 2026 Por elfarinha

Há um fascismo que se olha ao espelho e sabe o nome próprio que tem. Há outro que ainda se penteia como “indignação”, “chega de abusos”, “justiça para os de baixo”, enquanto vai ensaiando o gesto duro com que se fala ao país.

O texto de Jonathan Rauch na The Atlantic sobre a presidência de Donald Trump faz o inventário desse fascismo que já não se esconde na penumbra. Não é apenas o homem autoritário que confunde o Estado com o seu negócio ou com a sua família. É um sistema de crenças e práticas, um fogo que prefere a demolição à reforma, a humilhação à crítica, a guerra à política. Quando se olha para Portugal, para a irrupção recente da extrema-direita no centro do palco, é difícil não reconhecer fragmentos desse mesmo guião, ainda que numa versão mais contida, mais periférica, como se estivéssemos a assistir aos ensaios gerais e não à estreia mundial.

Rauch fala de demolição de normas, da alegria quase infantil de quebrar a civilidade, de dizer o que “não se podia dizer”, de escarnecer inimigos até os reduzir a caricatura. Em Portugal, esta libertação do insulto entrou pela televisão como entretenimento político, aplaudida como “bom senso sem filtros”, “verdades duras”, uma espécie de catarse coletiva em que o alvo tanto pode ser o “cigano”, o “subsidiodependente”, o político “ladrão”, a feminista “histérica”. Primeiro rimo-nos. Depois habituamo-nos. Um dia damos por nós a repetir expressões que, ditas por um vizinho, nos teriam chocado. O fascismo contemporâneo começa assim: não com tanques na rua, mas com a erosão paciente do pudor, da vergonha, da delicadeza como travão.

Há também a desumanização, esse gesto simples de trocar pessoas por categorias degradadas, lixo, praga, ameaça difusa que precisa de ser “limpa”. Em Portugal, ouvimos falar de bairros inteiros como se fossem manchas de óleo num mapa, lugares onde “não entra a polícia”, onde “só há crimes e subsídios”, sem que se pronunciem nomes, histórias, rostos. Quando um partido cresce dizendo que há uma parte da população que “vive à custa do trabalho dos outros”, que certos grupos são estruturalmente um problema, está a dar ao ódio uma linguagem respeitável. Nós, sentados no sofá de domingo, vamos consentindo, porque nos disseram que é apenas “dizer as coisas como elas são”.

O artigo da The Atlantic descreve ainda a transformação da polícia em braço armado do ressentimento, uma força exibida em vídeos, fardas, raides noturnos, mais próxima de milícia do que de serviço público. Em Portugal não estamos aí. As forças de segurança não são ainda o prolongamento orgânico de um líder nem de um partido. Mas o desejo está no discurso: mais armas, mais autoridade, menos “direitos dos bandidos”, mais licença para “limpar” o que sobra do país “decente”. Quando se aplaudem agressões policiais como se fossem justiça sumária, quando se acha normal expor imagens de detenções como troféus nas redes sociais, estamos a ensaiar a vertigem que Rauch descreve: a excitação diante da força, a transformação da violência em espetáculo compensatório.

Trump não ataca só pessoas. Ataca a própria ideia de verdade, erguendo um mundo de factos alternativos em que cada mentira é um teste de fidelidade, um ritual de pertença. Por cá, também aprendemos depressa o valor político da dúvida permanente. Desacredita-se tudo ao mesmo tempo: jornalistas, tribunais, estatísticas, estudos, relatórios. Não se propõe uma verdade melhor, basta insinuar que nenhuma é confiável. É o mesmo jogo. Uma democracia sem confiança em nada é um terreno fértil para quem chega com uma narrativa simples e total: nós somos o povo, eles são o sistema. Um país inteiro passa a ler-se a preto e branco.

Há uma ideia que atravessa o texto de Rauch como uma lâmina: política transformada em guerra permanente. Em vez de adversários, inimigos. Em vez de divergências, ameaças existenciais. Em Portugal, esta lógica está a ser ensaiada à vista desarmada. O Parlamento transforma-se em palco de confrontos coreografados para a câmara, não para o debate; a linguagem inflama-se, a insinuação substitui o argumento, o insulto torna-se método. Não se procuram soluções partilháveis. Procura-se deixar o outro em cinzas. Carl Schmitt sorri, em silêncio, enquanto nos habituamos à ideia de que “não há conversa possível” com quem pensa diferente.

Rauch sublinha outra característica do fascismo: a recusa da separação entre o Estado e o que não é o Estado. Empresas, universidades, jornais, redes sociais, tudo deve alinhar com o projeto do líder, ou será humilhado, perseguido, descredibilizado. Em Portugal, já conhecemos de leve esse desejo de captura. Pressões sobre jornalistas, campanhas nas redes sociais para arruinar reputações, ataques coordenados a universidades ou artistas, tudo embrulhado na palavra “povo”. Não é ainda o Estado a comandar os meios, mas são já partidos a usá-los como armas, testando até onde pode ir o condicionamento, a intimidação, a chantagem simbólica.

E depois há o nacionalismo identitário, a fantasia de um país puro que foi corrompido por elites cosmopolitas, estrangeiros, minorias. No caso americano, Rauch fala de “blood and soil”, de uma América branca e cristã sonhada como destino perdido que é preciso restaurar. Entre nós, a versão é mais modesta, mas ecoa: um Portugal “dos portugueses”, uma ideia difusa de povo autêntico traído por políticos vendidos a Bruxelas ou a agendas “globalistas”. Um país que, sendo historicamente mestiço, marítimo, mestiço outra vez, se finge homogéneo para melhor excluir quem não encaixa na ficção.

Importa, contudo, fazer a distinção que o próprio Rauch faz: um líder fascista não basta para que um país seja, de imediato, um país fascista. Os Estados Unidos continuam a ter tribunais independentes, estados insubmissos, imprensa livre o suficiente para denunciar o abuso. Em Portugal, a Constituição de 1976, o papel do Presidente da República, o sistema partidário e até uma certa prudência social funcionam ainda como travões importantes. Não temos uma polícia política pessoal do chefe, nem campos de detenção erguidos à pressa, nem eleições canceladas. Temos, sim, um teste em curso: quanto da nossa democracia estamos disponíveis para sacrificar em troca do prazer de ver alguém “meter ordem nisto”.

O perigo talvez não esteja em acordarmos um dia sob uma ditadura formal, mas em adormecermos aos poucos numa cultura política fascizante. No modo como falamos uns dos outros. Nas palavras que achamos aceitáveis. No riso cúmplice diante da humilhação alheia. Na pressa em achar que “eles” não contam, que “não fazem falta nenhuma”. Nas vezes em que já cedemos no léxico, na delicadeza, na dúvida, só para não sermos acusados de “politicamente corretos”.

Rauch escreve que é preciso dar nome às coisas, que evitar a palavra fascismo, quando a constelação de sinais está à vista, se torna uma forma de negação. Em Portugal, talvez este seja o momento de olhar de frente para as semelhanças incipientes, sem dramatismo de cartaz, mas com a gravidade que o assunto pede. Reconhecer que há um fio que liga a desumanização no discurso à violência na rua, a erosão da imprensa livre ao silêncio cúmplice, a transformação da política em guerra à vontade de suspender direitos “temporariamente”.

Não é um exercício académico. É da ordem do íntimo. É perguntar que país aceitamos ser quando ninguém está a ver, quando desligamos a televisão e repetimos, sozinhos, as frases que ouvimos. A democracia não se perde apenas nas constituições emendadas. Perde-se, devagarinho, nas palavras que deixamos de estranhar.