Carnaval: um modelo de liderança para o resto do ano
Fevereiro 17, 2026Imaginei uma empresa. Não aquela das fotografias polidas dos relatórios anuais, com pessoas de dentes perfeitamente alinhados a sorrir para objetivos trimestrais. Imaginei antes um corredor na terça feira de Carnaval, onde alguém aparece de Careto de Podence, com os guizos a tilintar, e outro trouxe uma máscara de raposa que comprou numa loja de Lisboa qualquer. (O chefe está de palhaço, mas isso é outra história, ou talvez seja a mesma).
Há algo de extraordinariamente humano no Carnaval que nós, portugueses, transportamos para dentro das paredes de vidro dos escritórios. E não falo dos foliões organizados pelo departamento de recursos humanos, com cupcakes cor de rosa e um concurso de fantasias cujo prémio é um vale de massagem. Falo daquela permissão breve, quase subversiva, de mostrarmos uma camada que o resto do ano mantemos sob a almofada do etiqueta profissional.
A minha avó dizia que o Carnaval serve para o povo esquecer que tem fome. Eu digo que serve para nos lembrarmos que temos rosto. Durante trezentos e sessenta e poucos dias, usamos máscaras invisíveis. A do competente, a do disponível, a daquele que tem sempre a resposta na ponta da língua. São máscaras de proteção, claro. O silêncio foi durante muito tempo a nossa linguagem no trabalho, num tempo em que a não resposta era a única armadura permitida. Mas o Carnaval ensina-nos outra coisa: que há força na vulnerabilidade, que a estratégia passa também por baixar a guarda.
Eu penso muito naquela ideia da inversão. No tempo em que a patroa servia a mesa aos empregados, no rei que era coroado de papel, no poder de subverter a ordem por algumas horas sem que o mundo desmorone. (O mundo não desmorona, percebem? Continua lá fora, na rua, a girar na sua teimosia). Isto parece-me tremendamente útil para quem gere equipas. Não a subversão pelo caos, mas a subversão pela verdade. Aquela que acontece quando alguém, finalmente, diz “não sei”, ou “isto não está a funcionar”, ou “preciso de ajuda”, e a sala não implode.
Há pessoas que passam por baixo do radar das empresas. Não porque não trabalhem, mas porque trabalham sem estrondo. São as que têm a história não contada, o talento escondido, a dor que trazem disfarçada de prazo cumprido. O Carnaval, com a sua generosidade de espírito, com a sua graça de quem sabe que a vida é curta demais para andarmos sérios de más posturas, podia ser um modelo. Não o da festa ruidosa, mas o da atenção. Da escuta. De perguntarmos àquele colega do canto, daquele que nunca fala nas reuniões, como é que ele é quando ninguém está a ver.
A minha palavra preferida é liberdade. E a liberdade, no contexto de quem lidera ou de quem é liderado, passa por criar espaços onde as pessoas não precisem de pedir licença para serem inteiras. O Carnaval dura poucos dias, mas a memória de nos termos visto de outra forma, de nos termos reconhecido nas camadas uns dos outros, essa poderia durar o ano todo.
E vocês? Que máscara deixariam no cabide, se o escritório fosse por um instante uma rua de Ovar, uma noite de Torres Vedras, uma manhã de Lazarim?