Quando a inteligência artificial acerta o tom e falha no pensamento
Abril 17, 2026Voltei a este tema depois de ler um artigo recente da Harvard Business Review intitulado [“Researchers Asked LLMs for Strategic Advice. They Got ‘Trendslop’ in Return”](https://hbr.org/2026/03/researchers-asked-llms-for-strategic-advice-they-got-trendslop-in-return). Fiquei menos impressionado com a novidade do diagnóstico do que com a precisão da palavra. “Trendslop” é um termo útil porque dá nome a uma sensação que muitos já reconheceram, embora nem sempre a saibam descrever com clareza.
Há textos que hoje se identificam quase de imediato. Não porque estejam errados, nem porque sejam superficiais de forma evidente. Pelo contrário. São textos competentes, estáveis, fluentes e impecavelmente compostos. Dizem quase tudo o que seria suposto dizer. E, no entanto, deixam no fim uma impressão de vazio, como se tivessem passado ao lado do ponto mais difícil da questão.
O problema, para mim, não está em a inteligência artificial escrever mal. Está em escrever bem demais em contextos onde a correção formal não basta. Ou melhor: está em escrever com uma espécie de segurança verbal que facilmente se confunde com discernimento. Mas escrever bem não é o mesmo que pensar bem.
Convém notar, aliás, que esta tendência para a línguagem lisa e prudente não foi inventada agora. As organizações já produziam antes comunicados excessivamente calibrados, respostas defensivas com ar sereno e discursos cheios de gestão de tom e pouca substância. A novidade é outra. A inteligência artificial absorve este material, aprende-o depressa e devolve-o com uma eficácia difícil de rivalizar. Não cria a mediania, mas acelera-a. Não inventa o lugar-comum, mas torna-o instantâneo e gratuito.
É por isso que o risco se torna mais nítido na comunicação institucional. Uma instituição não comunica apenas para informar. Comunica para marcar posição, enquadrar acontecimentos, preservar autoridade, responder a pressões e administrar confiança. Há momentos em que a linguagem não serve apenas para explicar; serve para agir, para conter ou para assumir um risco público.
E é aqui que começo a desconfiar da facilidade com que hoje se adota a IA como parceira de estratégia. Pode ser útil, claro. Ajuda a ordenar informação, comparar versões, resumir documentos e testar objeções. Seria artificial esconder o óbvio. Mas há uma fronteira a partir da qual a sua fluência cria um problema em vez de o resolver. É a fronteira onde a situação exige escolha e não apenas equilíbrio.
Pense-se num momento de crise. Não num caso abstrato, mas numa situação em que uma organização está exposta e sob observação. A IA consegue, em poucos segundos, propor uma resposta irrepreensível: tom responsável, promessa de revisão, abertura à transparência e vocabulário de contenção. Tudo certo. Talvez certo demais. Porque às vezes o momento não pede contenção; pede nitidez. Ou não pede proximidade, mas autoridade. Talvez o que se exija seja responsabilidade assumida sem amortecedores lexicais. É difícil programar esta diferença, porque ela não depende apenas da correção das palavras. Depende da situação concreta, da história de quem fala e do custo que se está disposto a pagar por cada frase.
É por isso que continuo a achar insuficiente a crítica que foca apenas nas chamadas alucinações factuais. Esse risco existe, evidentemente. Mas há outro, mais discreto, que me parece por vezes mais corrosivo: a produção de textos plausíveis e organizados que são, ainda assim, fracos no essencial. Não porque faltem dados, mas porque falta exposição ao real. Falta o tipo de contacto com a circunstância que nos obriga a decidir entre alternativas imperfeitas.
Na prática corrente, isto traduz-se numa tendência da IA para se aproximar do centro do discurso aceitável. Isso explica a sua utilidade operacional e, ao mesmo tempo, o seu limite conceptual. É muito boa a produzir versões defensáveis. É muito menos segura quando o que está em causa é encontrar uma posição singular ou uma formulação que seja, de facto, necessária e não apenas correta.
Talvez seja aqui que uma instituição corre mais risco sem se aperceber. Quando começa a falar numa voz sempre sensata, sempre igual e sempre higienizada, talvez esteja a perder o que mais importa preservar. Não apenas estilo ou identidade verbal, mas a capacidade de falar a partir da sua própria experiência. Uma voz institucional não vale por soar bem; vale por soar própria. E isso é mais difícil de terceirizar do que às vezes se admite.
Na negociação estratégica, esta limitação aparece de outra forma. Negociar não é escolher o parágrafo mais conciliador. É perceber limites, testar resistências, medir tempos e interpretar silêncios. Nem sempre a formulação mais equilibrada é a mais inteligente. Por vezes, é apenas a menos comprometedora. E há momentos em que evitar o compromisso já é uma forma de erro.
Talvez “trendslop” nomeie tudo isto melhor do que muitos diagnósticos solenes. Não exatamente a mentira, nem sequer a banalidade pura. Antes uma mistura de prudência e boa compostura verbal que produz textos respeitáveis, mas sem verdadeira necessidade interior. Textos que parecem pensados porque são bem montados. Textos que conhecem o repertório do discernimento, mas nunca pagaram o preço por ele.
Usar IA nestes contextos será inevitável. A questão não é recusar a ferramenta, mas sim evitar atribuir-lhe uma sabedoria que ela não possui apenas porque reduz o atrito da escrita. Quanto mais impecável parecer uma formulação, mais vale a pena perguntar de onde veio. Se nasceu da realidade concreta, com os seus riscos e constrangimentos, ou se foi apenas montada a partir da média do que hoje soa bem.
Essa distinção não resolve tudo, mas talvez seja por aí que ainda começa algum pensamento.