Modernizar não é desregular: uma linha que o Governo insiste em apagar
Junho 10, 2026A reforma laboral não pode ser mais um daqueles exercícios de retórica política, já vimos esse filme, nem um truque disfarçado para apertar ainda mais quem trabalha.
E, sinceramente, quando até o Banco de Portugal vem dizer que os salários andam comprimidos, que o salário mínimo está quase a colar ao mediano… custa perceber porque é que ainda estamos a discutir “flexibilizar” relações laborais. Flexibilizar para quê, exatamente? O problema não está aí. Nunca esteve.
Portugal não sofre de excesso de direitos dos trabalhadores. Isso é uma narrativa conveniente, mas não resiste muito tempo à realidade. O que temos é outra coisa: um mercado de trabalho desequilibrado, meio coxo, onde a negociação coletiva foi perdendo força, e isso nota-se, onde os salários andam sempre a reboque e onde demasiadas empresas continuam presas à lógica mais fácil: competir pelo baixo custo, em vez de fazer o esforço (mais difícil, claro) de inovar, qualificar, produzir melhor.
E depois aparece esta proposta de revisão da legislação laboral, embrulhada no discurso da “modernização”. Modernização… bom, depende do que se entende por isso. Porque, olhando com atenção, o que ali está, em vários pontos, não é propriamente um salto em frente. É mais um empurrão para a precariedade, uma espécie de ajuste fino que acaba por fragilizar ainda mais quem já está numa posição fraca.
Quando se mexe nos instrumentos de proteção e se alarga a tal “flexibilidade”, que, curiosamente, costuma ser quase sempre unilateral, não se está a tornar o mercado mais dinâmico. Isso é a teoria. Na prática, o que se está a fazer é consolidar um modelo que já conhecemos bem: salários baixos, pouca margem para negociar, muita pressão individual.
A questão, no fundo, é simples, embora às vezes finjamos que não é: não há valorização salarial sem algum equilíbrio de forças. Não há. E esse equilíbrio desaparece quando os sindicatos são empurrados para a periferia, quando a negociação coletiva perde eficácia, quando cada trabalhador fica sozinho a negociar com a entidade empregadora. Sozinho não negocia, aceita.
Se o próprio diagnóstico oficial reconhece que há compressão salarial, então a resposta não pode ser esta. Ou melhor, pode… mas é a resposta errada. O que faria sentido era ir no sentido oposto: reforçar a contratação coletiva, dar mais peso aos sindicatos, devolver escala à negociação setorial. E, já agora, criar mecanismos que permitam distribuir melhor a riqueza, porque ela existe, só não chega a todos.
E isto nem é apenas uma questão “ideológica”, como às vezes se tenta colar. É também economia básica. Um país com salários comprimidos prende talento, trava mobilidade social, desincentiva qualificações. Depois admiram-se que as pessoas saiam. Ou que não invistam mais nelas próprias.
Há aqui uma inversão estranha: fala-se de salários mais altos como se fossem um problema. Não são. Nunca foram. São, aliás, uma condição para uma economia mais sólida, mais previsível, até mais produtiva. O que não faz sentido, mesmo nenhum, é exigir mais aos trabalhadores e, ao mesmo tempo, reduzir-lhes a capacidade de negociar o valor do seu trabalho.
E não é preciso inventar muito. A Europa está cheia de exemplos que mostram caminhos diferentes. Países onde a negociação coletiva continua a ter peso real, não simbólico. Não por acaso, mas porque se percebeu uma coisa básica: o equilíbrio entre capital e trabalho não aparece sozinho. Constrói-se. Dá trabalho, exige instituições fortes, exige sindicatos com capacidade real de intervenção.
Por isso, quando o Governo apresenta isto como uma reforma técnica… não é bem assim. Não é neutro, não é meramente operacional. É uma escolha política, no sentido mais claro do termo.
No fundo, a pergunta é desconfortável, mas inevitável: queremos uma lei laboral que proteja quem trabalha, a sério, e que ajude a subir salários, ou queremos continuar neste caminho de compressão e fragilização?
Eu não tenho grandes dúvidas. Portugal precisa de mais capacidade negocial para os trabalhadores e para os sindicatos. Mais, não menos. Precisa de enfrentar a precariedade de frente, não de a normalizar com outro nome qualquer. E precisa de abandonar esta ideia, que já cansa, de que modernizar é desregular.
Modernizar, se formos honestos, é outra coisa: é reforçar direitos, estabilizar relações laborais e garantir que o crescimento económico não fica só nos relatórios, chega mesmo à vida das pessoas.