serviço externo inevitável
Agosto 29, 2026Há uma frase no debate sobre os ascensores de Lisboa que não pode passar sem contestação: “o serviço externo é inevitável.”Inevitável porquê?
A Carris anuncia novas equipas e, ao mesmo tempo, continua a recorrer a serviços externos para assegurar uma função essencial. Convém perceber como chegámos aqui.
Quando uma empresa pública deixa degradar a sua capacidade interna, recorre ao exterior. Com o tempo, a falta de capacidade própria passa a ser apresentada como a razão para continuar a contratar fora. E assim se instala um ciclo difícil de romper.
Primeiro perde-se a capacidade. Depois contrata-se para compensar essa perda. Finalmente, a própria dependência passa a ser apresentada como inevitável.
Nos transportes públicos, isto tem um preço que vai muito além do valor inscrito num contrato.
Perde-se conhecimento técnico. Perde-se experiência. Fragiliza-se a capacidade de resposta. E aumenta-se a dependência de empresas externas para assegurar funções que deveriam fazer parte do conhecimento e da competência da própria Carris.
Se faltam trabalhadores, a solução passa por contratar e formar.
Se faltam competências, é preciso reconstruí-las dentro da empresa.
Se contratar fora é realmente mais eficiente, então essa vantagem deve ser demonstrada com números e com uma avaliação séria do custo total: supervisão, continuidade, conhecimento acumulado, dependência do fornecedor e capacidade de resposta no futuro.
A subcontratação pode fazer sentido em situações concretas. O problema começa quando deixa de ser uma ferramenta e passa a ser um modelo de funcionamento.
Uma empresa de transportes públicos forte precisa de capacidade própria.
Os ascensores de Lisboa são património da cidade, infraestrutura essencial e parte de um serviço público. Mantê-los exige conhecimento acumulado, equipas estáveis e responsabilidade sobre o serviço.
Dizer que o recurso ao exterior é inevitável é, no fundo, aceitar que a Carris continuará a perder capacidade própria.
E essa não é uma inevitabilidade.
É uma escolha.
A verdadeira pergunta é outra: queremos uma Carris capaz de assegurar o seu futuro ou uma Carris cada vez mais dependente de quem trabalha para ela?