O dogmatismo de quem combate o dogmatismo

Outubro 17, 2026 Por elfarinha

Ensaio de opinião | Ideologia, pensamento crítico e os limites da razão política

Há uma pergunta que me parece particularmente interessante quando discutimos ideologias: o que nos levaria a mudar de opinião?

A pergunta surgiu-me na sequência da leitura do artigo «Idealismo ideológico e suas falácias», publicado no Morpha. O texto aborda uma questão importante: a tendência para proteger as nossas convicções de argumentos ou evidências que as possam contrariar. Recorre a falácias conhecidas e defende que as ideias devem ser confrontadas com a realidade e com os resultados que produzem.

Concordo com a preocupação de fundo. Ainda assim, fiquei com vontade de levar a discussão um pouco mais longe. Afinal, também podemos construir uma teoria sobre os erros dos outros sem perceber inteiramente os nossos.

A pergunta parece simples. Podemos até responder que mudamos quando os factos demonstram que estamos errados, quando encontramos argumentos melhores ou quando percebemos que as nossas convicções já não resistem ao confronto com a realidade. É uma resposta razoável. O problema é que, quando estamos realmente envolvidos numa discussão, raramente as coisas são tão simples.

Encontramos explicações para os resultados de que não gostamos. Desconfiamos dos dados que contrariam as nossas expectativas. Somos mais exigentes com os argumentos dos outros do que com os nossos. E, por vezes, conseguimos fazer tudo isto com a sincera convicção de que estamos apenas a defender a verdade.

Foi a leitura do artigo Idealismo ideológico e suas falácias, publicado no Morpha, que me levou a pensar nesta questão. O texto identifica um problema real: a tendência para proteger uma ideologia de qualquer evidência que possa pôr em causa os seus pressupostos. Recorre a falácias conhecidas, chama a atenção para os mecanismos de justificação e defende que as ideias devem ser confrontadas com os resultados que produzem.

Há muito de válido nesta preocupação. Ainda assim, fiquei com a sensação de que a questão merece ser levada um pouco mais longe.

Afinal, também podemos construir uma teoria sobre os erros dos outros sem perceber inteiramente os nossos.

Quando uma ideia deixa de poder perder

Uma convicção torna-se particularmente interessante quando parece ter uma explicação para tudo.

Se os resultados são positivos, confirmam a teoria. Se são negativos, a aplicação foi defeituosa. Se a experiência falha, as condições não eram as adequadas. Se alguém apresenta um caso contrário, esse caso deixa de ser considerado representativo.

A teoria sobrevive. A realidade é que vai perdendo o direito de a contrariar.

Este mecanismo existe na política, na economia, nas organizações e até nas relações pessoais. Reconhecemo-lo com facilidade quando acontece do lado de lá. Já quando está presente nas ideias em que investimos tempo, identidade e esperança, a nossa capacidade de o identificar pode diminuir bastante.

Mas há aqui uma dificuldade que convém não ignorar. Nem toda a explicação para um resultado negativo é uma desculpa. Às vezes, é mesmo a explicação correta.

Imaginemos uma reforma dos transportes públicos. A empresa responsável anuncia uma redução dos custos operacionais e apresenta a medida como um sucesso. Os números confirmam a redução. Entretanto, em algumas zonas periféricas, os tempos de espera aumentam e há passageiros que passam a ter mais dificuldades em chegar ao trabalho.

Foi uma boa decisão?

Depende do que estamos a avaliar. Se o objetivo era reduzir custos, a medida alcançou-o. Se o objetivo incluía melhorar o acesso ao transporte, o resultado é bastante menos claro. E se a redução de custos tiver sido conseguida à custa de um serviço essencial para pessoas com poucas alternativas, surge uma questão que os indicadores financeiros, por si só, não conseguem resolver.

O exemplo também funciona no sentido inverso. Uma política pode apresentar resultados negativos nos primeiros meses e vir a produzir benefícios mais tarde. Pode falhar porque foi mal executada. Pode revelar que os pressupostos iniciais estavam errados.

A dificuldade está em distinguir estas possibilidades sem escolher antecipadamente aquela que mais nos convém.

É aqui que começa o verdadeiro trabalho crítico.

As falácias ajudam. Mas não fazem o trabalho todo.

O artigo chama a atenção para quatro falácias: a falácia do nirvana, a do «nenhum escocês de verdade», o falso dilema e o espantalho.

São instrumentos úteis. Convém, contudo, ter cuidado com a facilidade com que os transformamos em rótulos.

A falácia do nirvana aparece quando rejeitamos uma solução real porque não corresponde a uma alternativa idealizada. É frequente ouvir que determinada medida não serve porque continua a deixar problemas por resolver. Mas também pode acontecer que uma solução seja, de facto, insuficiente para aquilo que se pretende alcançar. A questão está em saber qual o nível de exigência razoável, tendo em conta os recursos disponíveis, os custos e as alternativas.

O falso dilema é outra presença habitual nos debates públicos. Apresentam-se duas possibilidades como se não existisse mais nenhuma. Ou aceitamos a proposta tal como foi apresentada, ou somos contra qualquer mudança. Ou defendemos determinada reforma, ou queremos manter tudo na mesma.

A realidade costuma ser mais complicada. Há soluções intermédias, alterações possíveis, experiências que podem ser feitas antes de uma decisão definitiva. Mas nem sempre existem alternativas viáveis, e também seria um erro fingir que todas as decisões podem ser adiadas até encontrarmos uma solução que satisfaça toda a gente.

O problema não está em escolher entre duas opções. Está em esconder outras possibilidades quando elas existem.

A falácia do «nenhum escocês de verdade» é particularmente interessante porque revela a facilidade com que podemos mudar as regras a meio do jogo. Quando surge um exemplo que contraria a nossa afirmação, alteramos a definição para o excluir. A tese fica protegida, embora o argumento inicial tenha perdido consistência.

O espantalho, por sua vez, dispensa muitas vezes uma resposta ao argumento real. É mais fácil atacar uma versão simplificada da posição do adversário, atribuir-lhe intenções que não demonstrou ou apresentar a sua proposta de uma forma que a torna absurda.

Vemos isto frequentemente nos debates políticos. Uma pessoa pede uma avaliação independente de uma medida e é acusada de querer impedir qualquer mudança. Outra questiona os custos de uma reforma e passa a ser apresentada como defensora dos privilégios existentes. A discussão desvia-se da questão inicial e transforma-se numa disputa sobre aquilo que cada um supostamente representa.

Ainda assim, há uma distinção que me parece essencial: identificar uma falácia num argumento não demonstra automaticamente que a conclusão seja falsa.

Alguém pode chegar a uma conclusão correta através de um raciocínio deficiente. E pode construir um argumento formalmente consistente a partir de premissas erradas.

As falácias ajudam-nos a perceber onde um raciocínio falha. Para saber se uma posição é sustentável, precisamos de continuar a investigação.

A ideologia começa antes da discussão

Talvez o problema seja mais profundo do que a qualidade dos argumentos que utilizamos.

As nossas ideias não nascem num vazio. Formam-se a partir da experiência, da educação, das relações que estabelecemos e do ambiente social em que vivemos. Algumas tornam-se parte da nossa identidade. Outras estão ligadas à profissão, ao grupo a que pertencemos ou à forma como interpretamos a nossa própria história.

Quando uma convicção política é questionada, podemos sentir que está a ser questionada também uma parte de nós.

Isto ajuda a perceber por que razão a apresentação de novos factos nem sempre altera uma posição. A pessoa pode compreender a informação e continuar a rejeitar a interpretação que lhe é proposta. Pode desconfiar da fonte, atribuir maior importância a outros dados ou considerar que a conclusão ignora aspetos fundamentais da questão.

Há situações em que essa resistência é perfeitamente justificável. Noutras, estamos perante aquilo a que a psicologia chama raciocínio motivado: a tendência para avaliar a informação de forma favorável às conclusões que desejamos preservar.

Não é necessário supor que as pessoas mentem conscientemente a si próprias. Muitas vezes, acreditam sinceramente que estão a pensar com imparcialidade.

A questão torna-se ainda mais interessante quando olhamos para as relações entre ideologia e poder.

Marx e Engels procuraram compreender a relação entre as ideias e as condições materiais da vida social. Gramsci aprofundou a questão da hegemonia, mostrando como determinadas conceções do mundo se tornam dominantes e passam a ser vistas como naturais ou evidentes. São perspetivas diferentes, com problemas e pressupostos próprios, mas que nos ajudam a olhar para além do raciocínio individual.

Uma ideia pode ser defendida porque alguém acredita nela e, ao mesmo tempo, contribuir para manter uma determinada distribuição de poder. Uma instituição pode apresentar os seus próprios interesses como se fossem os interesses gerais da sociedade. Uma organização pode confundir aquilo que lhe é conveniente com aquilo que é melhor para todos.

Nada disto prova que a ideia seja falsa. Seria uma falácia rejeitá-la apenas por causa da sua origem ou dos interesses de quem a defende.

Mas também seria ingénuo ignorar os interesses e as relações de poder quando tentamos compreender por que razão certas ideias são aceites, protegidas ou repetidas.

A análise ideológica precisa destas duas cautelas: não presumir que uma ideia é falsa porque serve determinados interesses e não presumir que é verdadeira porque os seus defensores acreditam sinceramente nela.

Quem escolhe os factos relevantes?

Há uma expressão que aparece frequentemente quando se discutem decisões políticas: «Temos de olhar para os resultados».

Concordo. Mas gostava de saber quantas vezes discutimos seriamente o que estamos a chamar resultados.

Voltemos aos transportes públicos. Uma administração consegue reduzir a despesa, aumentar a produtividade por trabalhador e melhorar alguns indicadores de pontualidade. São resultados relevantes. Ao mesmo tempo, determinadas ligações desaparecem, os tempos de espera aumentam em algumas zonas e os trabalhadores passam a enfrentar condições mais difíceis.

Podemos medir tudo isto. O problema não é a falta de números. É decidir como os devemos interpretar e que importância atribuímos a cada dimensão.

Se o critério principal for a redução de custos, a avaliação poderá ser favorável. Se o acesso ao serviço tiver um peso maior, a conclusão muda. Se considerarmos que o transporte público tem uma função social que não pode ser avaliada exclusivamente através da rentabilidade, teremos de introduzir outros critérios.

Os dados não deixam de ser objetivos por causa disto. Mas a decisão sobre aquilo que merece ser medido, comparado e valorizado envolve escolhas que precisam de ser assumidas.

A mesma questão surge na saúde, na educação, na habitação e na organização do trabalho. Uma política pode melhorar os resultados médios e agravar a situação de um grupo específico. Uma empresa pode aumentar a produtividade e deteriorar as condições em que o trabalho é realizado. Um serviço pode tornar-se mais barato e menos acessível para quem mais precisa dele.

Quando alguém apresenta os indicadores favoráveis, é legítimo perguntar o que ficou de fora. Quando alguém denuncia os efeitos negativos, também é legítimo perguntar qual era a situação anterior, que alternativas existiam e quais seriam as consequências de não fazer nada.

O pensamento crítico começa a perder qualidade quando só fazemos estas perguntas ao lado com que discordamos.

O problema de provar que uma política funciona

Há outra dificuldade que merece mais atenção: a causalidade.

Uma política é implementada e, algum tempo depois, os indicadores melhoram. Foi a política que produziu a melhoria? Talvez. Mas podem ter ocorrido outras mudanças durante o mesmo período.

Uma empresa reduz custos e melhora os resultados financeiros. Isso pode decorrer de uma reorganização, mas também de uma alteração dos preços, de uma melhoria da conjuntura económica ou de decisões tomadas anteriormente. Um serviço público melhora a pontualidade depois de uma reforma. Será necessário perceber se a mudança resultou da reforma ou de alterações no tráfego, na frequência dos serviços ou na procura.

A sucessão temporal não basta para demonstrar uma relação causal.

Nas ciências sociais, esta dificuldade é particularmente importante. As políticas são aplicadas em contextos diferentes, envolvem pessoas com comportamentos imprevisíveis e produzem efeitos que nem sempre podem ser isolados. Uma solução que funciona numa cidade pode não funcionar noutra. Uma reforma que apresenta resultados positivos no curto prazo pode criar problemas que só surgem mais tarde.

Karl Popper continua a ser uma referência importante nesta discussão. A sua defesa da crítica e da possibilidade de refutação ajuda a afastar a ideia de que uma teoria pode ser aceite como verdade definitiva. A sua reflexão sobre a mudança social também valoriza a possibilidade de corrigir erros e evitar transformações cujas consequências sejam impossíveis de antecipar.

É uma abordagem útil. Não resolve, porém, todas as dificuldades da decisão política.

Nem tudo pode ser testado em pequena escala. Algumas mudanças institucionais exigem decisões abrangentes. Outras envolvem direitos fundamentais ou produzem consequências irreversíveis. E mesmo quando é possível realizar uma experiência, alguém terá de decidir quem suporta os seus custos.

Há uma pergunta que raramente recebe a atenção devida: quem paga quando uma experiência falha?

Uma política pode ser apresentada como um teste, mas os seus efeitos recaem sobre pessoas concretas. Se uma experiência prejudicar sobretudo quem tem menos recursos, a possibilidade de corrigir a medida mais tarde não elimina o dano já causado.

A aprendizagem através do erro é necessária. A distribuição dos riscos também deve ser discutida.

A ciência não decide sozinha o que é justo

É tentador pensar que, se conseguirmos medir melhor os resultados e aperfeiçoar os métodos de análise, os conflitos políticos se tornarão mais simples. Em parte, isso é verdade. Conhecer as consequências prováveis de uma decisão permite discutir com mais rigor.

Mas há desacordos que não desaparecem com melhores dados.

Imaginemos que uma reforma aumenta o rendimento total de uma sociedade, mas concentra os ganhos numa pequena parte da população. Os dados podem demonstrar que houve crescimento económico. Não determinam, por si só, se a distribuição dos ganhos é justa.

Ou pensemos numa medida que melhora a eficiência de um serviço, mas reduz a sua acessibilidade a pessoas com deficiência. A análise pode quantificar os efeitos e estimar os custos das alternativas. A decisão continua a exigir uma posição sobre direitos, prioridades e responsabilidades públicas.

É aqui que os factos e os valores se encontram.

David Hume é uma referência importante para pensar a distinção entre aquilo que acontece e aquilo que consideramos que deve acontecer. Podemos conhecer melhor as consequências de uma política sem que esse conhecimento resolva automaticamente a questão moral.

Isto não significa que todas as opiniões tenham o mesmo valor ou que a discussão ética seja uma questão de gosto pessoal. Os argumentos morais também podem ser examinados, confrontados com os seus pressupostos e avaliados quanto à sua coerência.

Significa apenas que precisamos de reconhecer a natureza das questões que estamos a discutir.

Se duas pessoas discordam sobre o número de trabalhadores necessários para assegurar um serviço, os dados podem ajudar a esclarecer o problema. Se discordam sobre o nível de serviço que a sociedade deve garantir, mesmo quando isso implica custos adicionais, há uma discussão política e moral que os números não resolvem.

Confundir estas dimensões pode dar uma aparência de neutralidade a decisões que envolvem escolhas de valor.

O dogmatismo também pode esconder-se na linguagem da objetividade

Há uma forma de dogmatismo que não se apresenta como ideologia. Apresenta-se como gestão, eficiência, racionalidade ou simples bom senso.

Uma decisão é tomada e os seus defensores afirmam que os números falam por si. As alternativas são tratadas como emocionais ou pouco realistas. Os custos são apresentados como inevitáveis, embora possam resultar de escolhas anteriores. E quem questiona os critérios utilizados é acusado de não compreender a realidade.

Por vezes, a crítica é injusta. Há decisões difíceis que exigem escolhas impopulares, e nem todas as objeções são bem fundamentadas.

Mas a linguagem da objetividade não dispensa a discussão sobre os pressupostos. Uma decisão pode estar tecnicamente bem executada e continuar a assentar numa escolha política discutível.

Acontece também o contrário. Uma proposta pode ser defendida em nome da justiça social e continuar a produzir resultados injustos. A intenção não substitui a avaliação das consequências.

É por isso que me parece insuficiente dividir o debate entre quem acredita na realidade e quem está preso à ideologia. Todos interpretamos a realidade a partir de pressupostos, mesmo quando não os reconhecemos. A diferença está na forma como lidamos com eles.

Quem defende uma reforma deve explicar o que pretende alcançar, que custos admite, que efeitos considera aceitáveis e em que circunstâncias estaria disposto a mudar de posição. Quem critica a reforma deve sujeitar-se à mesma exigência.

Não basta dizer que a proposta vai falhar. Também é preciso explicar porquê, apresentar alternativas e aceitar que essas alternativas sejam avaliadas com os mesmos critérios.

Uma crítica tem de aceitar ser examinada

Foi este ponto que me pareceu faltar desenvolver no artigo do Morpha.

O autor identifica mecanismos que podem tornar uma ideologia imune à crítica e apresenta exemplos que ajudam a reconhecer esses erros. Os exemplos são assumidamente hipotéticos, o que é legítimo num texto de natureza conceptual. A demonstração de que determinadas falácias existem não exige, por si só, um levantamento empírico de todos os casos em que ocorrem.

A dificuldade surge quando passamos da definição de um mecanismo para a explicação do comportamento real das ideologias.

Para isso, seria necessário analisar casos concretos. Observar como as pessoas justificam decisões, verificar se os critérios mudam depois de conhecidos os resultados e comparar a explicação apresentada com outras interpretações possíveis. Seria igualmente necessário distinguir a defesa arbitrária de uma posição da revisão legítima de uma hipótese perante novas informações.

Sem esse trabalho, corremos o risco de reconhecer o fenómeno com clareza em exemplos abstratos e de o aplicar com demasiada facilidade às posições de que discordamos.

O próprio conceito de «idealismo ideológico» merece, por isso, ser submetido ao exame que propõe.

Que evidência levaria o autor a rever a sua definição? Como distinguiria uma justificação construída para salvar uma doutrina de uma explicação que, apesar de contrariar a interpretação inicial, se revela correta? Que tipo de desacordo consideraria legítimo?

São perguntas que não procuram desvalorizar o artigo. Pelo contrário. Se queremos levar a sério a crítica ao dogmatismo, temos de permitir que os seus instrumentos sejam questionados.

Uma teoria que pretende identificar a resistência injustificada à evidência deve conseguir distinguir essa resistência de outras formas de desacordo. Caso contrário, qualquer posição persistente pode acabar classificada como dogmática, dependendo de quem faz a avaliação.

E assim voltamos ao princípio.

O que nos faria mudar de opinião?

Não tenho a certeza de que exista uma resposta simples para esta pergunta. Depende do assunto, da qualidade da informação disponível e daquilo que está em jogo. Há convicções que devem mudar perante uma evidência contrária bastante clara. Outras exigem uma análise mais demorada, porque os dados são incompletos ou porque envolvem valores que não podem ser reduzidos a uma medição.

Mas talvez possamos começar por uma exigência concreta: tornar explícitas as condições em que aceitaríamos rever uma posição.

Se defendemos uma política pública, que resultados nos levariam a reconhecer que falhou? Se criticamos uma reforma, que evidência nos faria admitir que os seus efeitos foram melhores do que esperávamos? Se afirmamos que uma organização está a agir de determinada maneira, que informação poderia contrariar a nossa interpretação?

Estas perguntas não garantem que sejamos imparciais. Pelo menos obrigam-nos a reconhecer que as nossas convicções têm de responder a alguma coisa.

Também vale a pena desconfiar da facilidade com que identificamos os erros dos outros. Quando uma pessoa apresenta um argumento fraco, podemos ter razão na crítica e continuar errados quanto à questão principal. Quando descobrimos uma falácia num discurso político, isso não nos autoriza a concluir que toda a posição defendida é falsa. E quando alguém discorda de nós, a explicação mais conveniente nem sempre é a mais verdadeira.

Talvez a parte mais difícil do pensamento crítico seja esta: aceitar que a nossa capacidade de reconhecer os erros dos outros não nos dá, por si só, uma capacidade equivalente para reconhecer os nossos.

O dogmatismo não pertence exclusivamente a uma corrente política, a uma tradição filosófica ou a um grupo social. Pode surgir em qualquer lugar onde uma convicção passe a funcionar como proteção contra a dúvida. Também pode surgir na defesa da racionalidade, da ciência ou do pensamento crítico, quando essas ideias são usadas para encerrar uma discussão em vez de a aprofundar.

Continuo a considerar importante que as ideologias sejam confrontadas com a realidade e que as decisões sejam avaliadas pelos seus resultados. Mas a realidade raramente chega até nós sem mediação. Escolhemos indicadores, interpretamos causas, atribuímos importância a determinados efeitos e fazemos opções sobre aquilo que consideramos justo.

O trabalho crítico começa aí, e não termina quando conseguimos apontar uma falácia ao adversário.

Fica uma pergunta que vale tanto para quem escreveu o artigo como para quem o lê, incluindo eu próprio: quando exigimos aos outros que provem aquilo em que acreditam, estamos igualmente dispostos a aplicar esse critério às ideias que mais queremos defender?

Porque há uma diferença entre acreditar que podemos estar errados e estar realmente preparado para descobrir em quê.

Artigo de referência: Idealismo ideológico e suas falácias, Morpha